março 6th, 2012 § Deixe um comentário
A noite chegou um oficial revolucionário à casa, parente de alguém, com o uniforme cheio de terra, e disse que tinha visto com os próprios olhos o seguinte: o cadáver do General Orozimbo Barbosa, que tinha sido heroi na guerra do pacífico e tinha tido a má ideia de continuar sendo leal a Balmaceda, nu, amarrado a uma cadeira de palha, com o pinto, disse, cortado e posto na boca, como se fosse um charuto, e os soldados desfilavam em frente a ele, cobrindo-o de xingamentos e cuspe, sujos, meio bêbados, mas felizes por terem ganho a batalha e por a guerra ter terminado.
Edwards, Jorge. 2004. El inútil de la família. Alfaguara. Santiago, Chile. lml.
novembro 24th, 2011 § Deixe um comentário
Ontem, quando o mundo era um povoado, não para poucos parecia ao alcance da mão alguma forma de mortalidade, talvez até humilde como a de Shakespeare, que hoje já durou a idade de cinco velhos; mas a chamada explosão demográfica nos torna todos sobreviventes da inundação, agarrados a um escorregadio telhado em declive, do qual as novas remessas de refugiados nos empurrarão para o abismo. Como Villasandrino, percebo sinais alarmantes. Primeiro: o mundo vai ficando pequeno para nos conter. Nos contratos de seus livros, amigos franceses assinalaram uma cláusula – hoje em dia, me dizem, imprescindível – que garante ao editor o direito de proceder à destruição, nem bem convenha, dos exemplares empilhados no depósito. Segundo: quem desapareça não volta assim sem mais nem menos. Encomendei em vão a algumas livrarias de Londres uma polêmica de Arnold e Newman acerca da tradução de Homero que até bem pouco tempo tinha lugar cativo, não só na história da literatura, mas também nas coleções mais comuns de obras famosas¹. Depois me disseram que uma certa universidade norte-americana preparava uma edição monumental de Arnold; de toda maneira, nos perguntamos até quando os Estados Unidos manterão seu papel de museu, firmamento e posteridade de passados e culturas.
¹Também não encontrei reedições de boa parte dos livros de George Moore, nem de quase nenhum de Andrew Lang; quanto a Eden Phillpotts, talvez só sobreviva em traduções para o espanhol publicadas em Buenos Aires.
Bioy Casares, Adolfo. La Trama Celeste. Sur:EditorialSudamericana. Buenos Aires. 1970. lml.
novembro 17th, 2011 § Deixe um comentário
Quando Arturo Belano acreditava que todas as suas aventuras tinham acabado, sua mulher, a que tinha sido sua mulher, a que ainda era sua mulher e que provavelmente continuaria sendo sua mulher até o fim de seus dias (pelo menos legalmente falando), foi visitá-lo na sua casa perto do mar e anunciou que o filho de ambos, o jovem e impetuoso Gerónimo, tinha se perdido em Berlim durante as Jornadas do Caos.
Isto aconteceu no ano de 2005.
Nesse mesmo dia, Arturo fez as malas e à noite tomou o primeiro avião com destino a Berlim. Chegou às três da manhã. Pela janela do taxi, pode comprovar que a cidade, aparentemente, estava tranquila, embora de vez em quando se vissem fogueiras e em alguns becos se vissem carros da polícias anti-distúrbios. Mas no geral tudo parecia tranquilo e a cidade dormia dopada.
Isto aconteceu no ano de 2005.
Bolaño, Roberto. Jornadas do Caos. in El Secreto del Mal. Publicação póstuma. Ed. Ignacio Echevarría. Anagrama. 2007.
outubro 31st, 2011 § Deixe um comentário
As grandes vias imperiais, Flamínia, Aurélia, Nomemontana, etc, por onde Nero, São Pedro e Messalina costumavam correr tão atarantados no cinema mudo sobre veículos adequados à irregularidade do pavimento e à tremedeira da tela, convergem sobre Roma formando uma teia de aranha em cujo centro o santo e rico Papa com seu mantel branco e hordas ociosas de adolescentes pobres com suas calças azuis apertadas e suas camisetas vermelhas ou verdes esperam os turistas estrangeiros, que fingindo visitar tesouros artísticos se lançam como moscas suicidas a um tipo ou outro de emoção, ou a ambos no pior dos casos. A planta desta teia de aranha, várias vezes recomposta durante e a idade média e a idade moderna, continua sendo essencialmente irregular e cresce sem parar. As casas se adaptam à curvatura das ruas, têm em geral oito ou dez andares e encerram em seu interior grandes pátios sujos, com frequência respingados de sangue pelo corpo de um suicida ou de alguma empregadinha camponesa que perde o equilíbrio enquanto pendura a roupa nos arames tradicionalmente estendidos de janela a varanda e vice-versa.
Wilcock, J.R.. Diálogos con el portero. in Caos, El. Editorial Sudamericana. Col. El Espejo. Buenos Aires. 1974. lml.
outubro 27th, 2011 § Deixe um comentário
Os tios mercadores chegaram quando já estava escurecendo. Não sei por que razão, nem Arib nem eu sentimos medo e continuamos na janela, apesar de que tive a impressão de que as forças policiais começavam a ocupar a parte baixa do prédio. Fizeram um cordão humano para impedir que a multidão, que havia começado a se aglomerar, se aproximasse do apartamento da vizinha do primeiro andar. Reconheci nossos tios à primeira vista. Como de costume, o mais velho carregava um cajado. Trajavam túnicas e barbas espessas. Conseguiram abrir caminho na multidão. Vimos como falavam com as forças da ordem. Em poucos minutos, estavam diante do pássaro morto.
(Bellatin, Mario. olhar do pássaro transparente, O. in: Obra Reunida. Alfaguara. 2005.)
outubro 27th, 2011 § Deixe um comentário
Conforme pude averiguar, aqui os médicos são insubornáveis. Do contrário, não seria difícil reunir uma pequena quantia e comprar sua alta sob a reflexão de que seu cuidado custa mais de cento e quarenta libras esterlinas diárias ao contribuinte inglês. Mas a única coisa de que precisamos é da colaboração do Michel, que se nega a simular durante as entrevistas e interrogatórios e, ultimamente, resiste a requerer a revisão do seu caso, o que para as autoridades da clínica – vi seu último informe – indica a evolução negativa do quadro.
(Fogwill, Rodolfo. moça de tule da mesa da frente, A. 1978. in: Cuentos Completos. Alfaguara. Argentina. 2008.)
outubro 25th, 2011 § Deixe um comentário
“… eles me gritavam por cima da cerca eles não estavam falando coisa com coisa reclamavam que eu fugi ao roteiro repetindo que eu não era mais o homem que eu costumava ser seguravam seus bebês no alto jogavam marshmallows nos seguranças e diziam que eu amoleci chame de intuição, chame de suspeita aterrorizante mas essas palavras de sarcasmo significavam que eles mal me conheciam porque até eu pude ver no jeito como eles me olhavam a lança do destino me atravessando …”oh meu Senhor. Cave, Nick. 2001. lml.
outubro 9th, 2011 § Deixe um comentário

o que demônios quer dizer a expressãozinha alta voltagem poética? ou eu estou enganado, aí o Severino pode me corrigir, ou voltagem é uma grandeza física relacionada a diferença de potencial. ou seja é preciso relevo pra que a voltagem se estabeleça. até aí, belê, mas onde entra a poesia aí? ponto pacífico: o tecido discursivo é relevos, ou vieses. ou seja, precisamos de que o poema passe de uma parte de baixo potencial pr’uma de alto potencial pra termos alta voltagem poética. como isso pode tornar o poema mais ou menos atraente? habilidade básica do poeta teria de ser modular picos e vales. a preocupação talvez tenha de recair em cima de qualquer coisa antes de olharmos pra orografia pra dar nota pr’um poema.
em geral, aplicam o alta voltagem poética a manifestações de outras linguagens, quando arriscam mais significação imagética ou, pior ainda, lírica. ridículo. lml.
outubro 4th, 2011 § Deixe um comentário
Saer usa pra falar de escritores em começo de carreira, notadamente Borges¹, as expressões retórica e declarativo, ou seja, pra ele, amadurecimento passa por recusa à ênfase. uma frase como imagine o lugar da sua infância não funciona, geral demais. uma frase como o destino precário e lúgubre das mãos trementes ansiando por desfecho tórrido mas inválido de noite não funciona. fica a questão sobre o que funciona. lml.
¹A posição do late-Borges é parecida e bem conhecida.
a práxis poético-narrativa (sou chique)
setembro 27th, 2011 § 2 Comentários
estou cansado. se eu apertar os olhos sai informação, provavelmente inútil. estou lendo uma tese de mestrado sobre o Saer. o ser humano é tão filho da puta que até de academicismo¹ (na nota de rodapé, pra não obrigar a ler) ele rouba algo que o justifique. e ao romance que está escrevendo a passo de tartaruga.
hoje, trabalho. ontem foi massa, enchi o caderninho de esboços de esboços de capítulos. certas palavras que eu nunca tinha escrito escrevi ontem, tipo chimarrão. por falar em chimarrão, sempre me perguntei por que a dedicatória do Hotel Atlântico é pro Tabajara Ruas. lml.
1: “Na passagem, observamos acentuado adensamento da narrativa, resultante do firme propósito do narrador de captar o instante e descrever o espaço circunstante que envolve o breve acontecimento. O expandido gesto de esmiuçamento dos dados referenciais e sensoriais que conformam o espaço-tempo dessa circunstância e a deliberada pormenorização dos diferente estratos e regiões que configuram o mundo das coisas sensíveis das personagens interditam provisoriamente o encadeamento episódico do relato, derramando sobre o leitor uma miríade de sentidos e significados latentes na corrente textual.” (Thomaz, Paulo César. El Entenado, a práxis poético-narrativa de Juan José Saer. USP. 2001)
setembro 26th, 2011 § Deixe um comentário
Mas antes de descer sobre sua superfície abarrotada de dobras e crateras e catacumbas, aqui vêm os avistamentos prévios, as transmissões difusas, as fotografias pouco precisas mas reveladoras de uma inegável presença, de um corpo flutuando na escuridão.
(Fresán, Rodrigo. Fondo del Cielo. Debolsillo. 2009)
lml
setembro 26th, 2011 § 1 Comentário

gostei muito de um livro de um autor que me empolga menos do que empolga outros. falo d’Onze (1995), do Bernardo Carvalho, com suas cinquenta primeiras páginas que entraram prum top 10 privado. estrutura orquestral bem bela, limpeza convincente da linguagem. ainda vou destrinchar a relação entre a segunda parte desse romance e o Cildo Meireles (1978) e aquele poema que aparece no encarte do Renegades do Rage Against the Machine (2000). quem parece que também curtiu esse segunda parte é o Alan Pauls, a julgar pelo capítulo do pintor n’El Pasado. E isso que escritor, crítico de arte, pintor, fotógrafo, curador, marchand, editor, poeta são os últimos personagens que eu escolheria prum livro, não sou Bolaño. lml.
p.s.¹: bem-vinda, chuva, senti saudades;
p.s.²: eu e Leandro Mayfair estamos marcando a sessão espírita que trará Cassandra de volta, aguardem.
uma cor estranha pra
setembro 21st, 2011 § Deixe um comentário
Tu viu que umidade?
na pausa pra colocar o café pra fazer
setembro 20th, 2011 § Deixe um comentário
eu achei que essa degravação de entrevistas de doutorando em educação a aleatórios me traria, senão umas histórias legais de vida, pelo menos um certo tino pra registrar o jeito como as pessoas realmente falam. tudo que eu ganhei foi dor nos braços. A lição que o velho Muta não ensinou, coloquialidade também é estilização, nem mais nem menos pura. lml.