janeiro 21st, 2012 § Deixe um comentário
A mão nos botões não é um gesto menos nobre do que o da mão sobre a Bíblia. Ambas tocam num fetiche, seja o botão, seja a Bíblia, para iniciar os trabalhos de realimentar nossa fome infinita.
NOLL, João Gilberto (2008). Acenos e afagos. 1ª edição. Rio de Janeiro. Record. lml.
janeiro 21st, 2012 § Deixe um comentário
(torch song, todd rundgren, no som, calorão em BSB)
descobri Tabajara Ruas na dedicatória de Hotel Atlântico, desencavo o único livro dele que eu tenho, um Perseguição e cerco a Juvêncio Gutiérrez, numa edição 1ª edição de 1990, da L&PM da época em que a L&PM publicava livros sem ser de bolso que não os do Eduardo Galeano, neste caso a capa é uma ilustração do Caulos, aquele desenhista filosófico estrela dos livros de português dos meus tempos de menino. lml.
janeiro 18th, 2012 § 4 Comentários
a faca de dois gumes acaba sendo a proporção entre¹ significar e não significar. por mais que desconjuremos de significar pra não forçar interpretação pra cima do leitor, pro romance se mover, são necessárias células de ação², por menores que sejam, células de funcionamento³. a distribuição dessas células é problemática. Noll situa a não significação no plano da personagem, Vigna situa no plano da narração. lml.
¹melhor que proporção entre, opção por
² de ação e de consequência e de definição
³funcionamento no sentido em que um livro do Borges funciona e, em outra escala, um seriado de tevê funciona
dezembro 19th, 2011 § Deixe um comentário
se balizarmos por Piglia, o Pauls pende mais pro Puig do que pro Saer. embora constitutivamente similares na sua hipersignificação, as verborragias do Pauls e do Saer tardio respondem a propósitos distintos. mas bem que na página 317 d’el pasado o bonairense homenageia o santafecino de unidad de lugar.
Tocó un timbre y esperó unos segundos, miró su propia sombra en el vidrio esmerilado de la puerta, hasta que una voz impaciente le exigió su nombre a través de un intercomunicador.
lml.
novembro 16th, 2011 § Deixe um comentário
O cinismo do narrador personagem inominado de O acrobata pede desculpas e cai¹ decorre de uma senciência e de uma galhofa encontráveis no(s) Paulo(s) d’O livro dos mandarins, conta de modos a deixar uma margem pra se desdizer dali a cinco minutos, sem grilo. As derivas (existenciais, espaço-temporais) lembram as derivas dos pianistas atores andarilhos do Noll. lml.
¹Wolff, Fausto. Codecri. 1980. capa do Ziraldo. contracapa do Millôr.
bel canto das musas eríneas
outubro 28th, 2011 § Deixe um comentário
(chega disso, do skank, no som)
Essa coluna do José Castello me lembrou daquilo que o Noll fala de escritura como liturgia. Na adolescência, o Noll se preparou pra cantor lírico, uma atividade onde o sentido ritual também é importante, o sentido de afastamento e de ordem muitas vezes inescrutável. Lembrou uma fala do Franzen sobre como é ridícula a pergunta praxe que se faz a escritores: como e quando você escreve?, pra ele é invasiva a pergunta, ao escrever, quer estar alheio a tudo, inclusive a ele mesmo. Precisa de ausência, ou pelo menos uma brecha, pra se ter o que escrever. lml.
outubro 7th, 2011 § 2 Comentários
difícil não concluir que a peregrinação do joão gilberto noll por editoras¹ tem algo de biográfico, de estético. tenho um exemplar de primeira edição do Rastros do Verão, capa horrível, e na orelha um anúncio de uma coleção chamada rebeldes&malditos e uma coleção chamada Olho da rua. são títulos da Olho da rua:
Abacaxi, Reinaldo Moraes;
Antologia Poética, Roberto Piva;
Gasolina & Lady Vestal, Gregory Corso;
7 dias na Nicarágua Libre – Ferlinghetti;
o editor é o Eduardo Bueno (historiador do fantástico e tradutor de ferlinghetti, de kerouac e provavelmente do corso);
no catálogo regular, uma tradução da Luzhin Defense, do Nabokov, sob o título A Defesa, só Denise Bottmann pode dizer se já é a do Jorio Dauster que sairia em 2008 pela Companhia das Letras.
queria muito achar esses contos de duas páginas que ele diz lá no site dele que publicou ao longo de 2004 no caderno pensar do correio braziliense. lml.
¹O cego e a dançarina – Civilização Brasileira, 1980. A fúria do corpo – Record, 1981. Bandoleiros – Nova Fronteira, 1985. Rastros do verão – LP&M 1986. Hotel atlântico – Rocco, 1989. O quieto animal da esquina – Rocco, 1991. Harmada – Companhia das Letras, 1993. A céu aberto – Companhia das Letras, 1996. Canoas e marolas – Objetiva, 1999. Berkeley em Bellagio – Francis, 2002. Mínimos, múltiplos e comuns – Francis, 2003. Lorde – W11 (a Francis é um selo da W11), 2004. A máquina do ser – Nova Fronteira, 2006. Acenos e afagos – Record, 2009. O nervo da noite – Scipione, 2009. Anjo das ondas – Scipione, 2010
justificativa
setembro 24th, 2011 § 1 Comentário
acho que uma das habilidades de escritor está em largar de solipsismos e descrever amplos espaços físicos e ações de grandes grupos. começar por uma amplidão física. Javier Marías faz isso em Corazón Tan Blanco. Rubens Figueiredo faz isso no livro que ganhou o prêmio São Paulo deste ano. O Noll faz isso e ainda cita um Lula de 1989 n’O Quieto Animal da Esquina.
aliás, é engraçado como toda microbiografia do Murilo Rubião que se preze tem de citar aquilo que ele falava de ter aprendido os truques da escrita com um tio aos onze anos de idade. que malditos truques serão esses? será esse tio um tio da mesma linhagem do tio do Juan Rulfo? aquele tio de cuja morte o Vila-Matas fala em Bartleby e Cia?
fica questão. lml.