maio 31st, 2012 § Deixe um comentário

É possível que El secreto del mal seja o mais irregular dos livros póstumos do Bolaño. É impossível saber que destinação ele ia dar pros excertos encontrados em seu computador. Parece que este conto que eu traduzi, ele escreveu no último ano de vida, quando já era famoso por suas controvérsias, mesmo assim, fica claro que o texto não estava pronto para publicação. Justamente por ser inacabado e ad hoc, supostamente secreto, a tradução do conto não foi fácil, algumas frases não batem, perdem o referente, argumentos morrem na praia, por aí vai; tratei tudo com literalidade, em especial os coloquialismos, que poderiam se beneficiar de algumas preparações básicas de texto. Em sua obra de prosa, as diatribes contra contemporâneos aparecem acolchoadas por outras camadas de enredo, é raro encontrar uma peça assim, declarativa. Nem em entrevistas e conferências Bolaño adota tão abertamente este teor de manifesto que deixa transparecer convicções estéticas. Leio isto mais como um desabafo do que como um exercício deliberado de crítica. lml.

DERIVATIVOS DA PESADA

Roberto Bolaño

                É curioso que tenham sido uns escritores burgueses os que elevaram Martín Fierro, de Hernández, ao centro do cânone da literatura argentina. Este ponto, é claro, é discutível, mas o certo é que o gaúcho Fierro, paradigma do espoliado, do valente (mas também do capanga), se alça no centro de um cânone, o cânone da literatura argentina, cada vez mais enlouquecido. Como poema, Martín Fierro não é uma maravilha. Como romance, em compensação, está cheio de significados por explorar, isso é, conserva sua atmosfera de vento ou, melhor, de ventarola, seus cheiros de intempérie, sua boa disposição para golpes do acaso. Mas é um romance da liberdade e da sujeira, não um romance sobre educação e bons modos. É um romance sobre a coragem, não um romance sobre a inteligência, muito menos sobre a moral.

                Se Martín Fierro domina a literatura argentina e seu lugar é no centro do cânone, a obra de Borges, provavelmente o maior escritor que já tenha nascido na América Latina, é apenas um parênteses.

                É curioso que Borges escrevesse tanto e tão bem sobre Martín Fierro. Não só o jovem Borges, que em algumas ocasiões costuma ser, no âmbito puramente verbal, nacionalista, mas também o Borges adulto, que em algumas ocasiões fica extasiado (estranhamente extasiado, como se contemplasse a gesticulação da Esfinge) diante das quatro cenas mais memoráveis da obra de Hernández, e que em algumas ocasiões inclusive escreve contos, de má vontade e perfeitos, argumentalmente epigonais à obra de Hernández. Quando Borges glosa Hernández, não o faz com o carinho e a admiração com que se refere a Guiraldes, nem com a surpresa e a resignação que usa para invocar aquele monstro familiar que foi Evaristo Carriego. Com Hernández, ou com o Martín Fierro, Borges dá a impressão de estar atuando perfeitamente, em uma peça de teatro que ele acha, por outro lado, mais do que detestável, errada. Mas, detestável ou errada, ele também a acha irremediável. Sua morte silenciosa em Genebra é, nesse sentido, mais do que eloquente. Que isso; não é só eloquente, na verdade, sua morte em Genebra fala pelos cotovelos.

                Com Borges vivo, a literatura argentina se transforma no que a maioria dos leitores conhece como literatura argentina. Isso é: tem Macedónio Fernández, que às vezes parece um Valery portenho, tem Guiraldes, que está doente e é rico, tem Ezequiel Martínez Estrada, tem Marechal, que logo vira peronista, tem Mujica Láinez, tem Bioy Casares, que escreve a primeiro romance fantástico e o melhor da América Latina, por mais que todos os escritos da América Latina se apressem a negar isso, tem Bianco, tem o pedante Mallea, tem Silvina Ocampo, tem Sábato, tem Cortázar, que é o melhor, tem Roberto Arlt, que foi o mais negado de todos. Quando Borges morre, tudo acaba de uma vez. É como se o Mérlin morresse, embora os círculos literários de Buenos Aires não fossem exatamente Camelot. Acaba principalmente o reino do equilíbrio. A inteligência apolínea dá lugar ao desespero dionisíaco. O sonho, um sonho muitas vezes hipócrita, falso, oportunista, covarde, se transforma em pesadelo, um pesadelo muitas vezes honesto, leal, valente, que atua sem rede de proteção, mas pesadelo, no fim das contas, e, o que é pior, literário, literariamente suicida, literariamente beco sem saída.

                Embora com a passagem dos anos seja legítimo se perguntar até que ponto o pesadelo ou a pele do pesadelo é tão radical como diziam seus cultores. Muitos deles vivem melhor que eu. Nesse sentido, posso me permitir afirmar que sou um rato apolíneo e que eles a cada dia se parecem mais com gatos angorá ou gatos siameses devidamente desinfetados por uma coleira de marca Acme ou de marca Dionisos, o que a esta altura da história vem a ser a mesma coisa.

                A literatura argentina atual, lamentavelmente, tem três pontos de referência. Dois deles são públicos. O terceiro é secreto. Os três, de alguma maneira, são reações antiborgeanas. Os três, no fundo, representam um retrocesso, são conservadores e não revolucionários, embora os três, ou pelo menos dois deles, se apresentem como alternativa de um pensamento de esquerda.

                No primeiro reina Osvaldo Soriano, que foi um bom romancista menor. Com Soriano tem que ter a cabeça cheia de matéria fecal para pensar que a partir dali se possa fundar um ramo literário. Não quero dizer que Soriano seja ruim. Já disse, é divertido, é, basicamente, um autor de romances policiais ou vagamente policiais, cuja principal virtude, amplamente elogiada pela crítica espanhola, sempre tão perspicaz, foi seu comedimento na hora de adjetivar, comedimento que por outro lado perdeu lá pelo quarto ou quinto livro. Não é muito para iniciar uma escola. Suspeito que a raiz da influência de Soriano (além de sua simpatia e generosidade, que dizem que foi grande) está na venda de seus livros, no seu fácil acesso nas massas de leitores, por mais que falar de massas de leitores quando na verdade estamos falando de vinte mil pessoas é, sem dúvida, um exagero. Com Soriano os escritores argentinos percebem que eles também podem ganhar dinheiro. Não é preciso escrever livros originais, como Cortázar ou Bioy, nem romances totais, como Cortázar ou Marechal, nem contos perfeitos, como Cortázar ou Bioy, e acima de tudo não é preciso perder tempo e saúde em uma biblioteca mequetrefe para que ainda por cima nunca te deem o prêmio Nobel. Basta escrever como Soriano. Um pouco de humor, muita solidariedade, amizade portenha, algo de tango, boxeadores musculosos e Marlowe velho e firme. Mas firme onde?, me pergunto de joelhos e soluçando. Firme no céu? firme na privada do seu agente literário? Mas você é besta, picaretinha, você tem agente literário? E um agente literário argentino, para maior escárnio?

                Se o escritor argentino responde afirmativamente a essa última pergunta, podemos ter certeza de que ele não vai escrever como Soriano e sim como Thomas Mann, como o Thomas Mann de Fausto. Ou, já com enjoo pela imensidade do pampa, direto como Goethe.

                A segunda linha é mais complexa. A segunda linha começa em Roberto Arlt mas é muito provável que Arlt seja totalmente inocente deste mal entendido. Digamos, modestamente, que Arlt é Jesus Cristo. Logo, a Argentina é Israel e Buenos Aires, Jerusalém. Arlt nasce e vive uma vida mais para a curta. Se não me engano, quarenta e dois anos. É um contemporâneo de Borges. Este nasce em 1899 e Arlt nasce em 1900. Mas, ao contrário de Borges, a família de Arlt é uma família pobre e quando vira adolescente não vai a Genebra e sim começa a trabalhar. O ofício mais frequentado por Arlt é o jornalismo e à luz do jornalismo é possível ver muitas de suas virtudes, mas também muitos de seus defeitos. Arlt é rápido, corre riscos, maleável, um sobrevivente nato, mas também um autodidata, não um autodidata no sentido que Borges foi um autodidata: o aprendizado de Arlt transcorre na desordem e no caos, na leitura de péssimas traduções, nos esgotos e não nas bibliotecas. Arlt é russo, um personagem de Dostoievski, enquanto Borges é um inglês, um personagem de Chesterton ou de Shaw ou de Stevenson. Inclusive, às vezes, a contragosto dele mesmo, Borges parece um personagem de Kipling. Na guerra entre os grupos literários de Boedo e Florida, Arlt está com Boedo, mas tenho a impressão de que seu ardor guerreiro nunca foi excessivo. Sua obra está composta de dois livros de contos e de três romances, embora o certo seja que escreveu quatro romances e que os contos não recolhidos em livro, contos que apareceram em jornais e revistas e que Arlt era capaz de escrever enquanto falava de mulheres com seus colegas de redação, dão pelo menos para mais dois livros. Também é autor de umas Águas-fortes portenhas, dentro da melhor tradição impressionista francesa e de umas Águas-fortes espanholas, estampas da vida cotidiana na Espanha dos anos trinta, onde abundam ciganos, pobres e as pessoas generosas. Tentou ficar rico com negócios que não tinham nada a ver com a literatura argentina da época, embora sim com a ficção científica, e fracassou sempre, e sempre de maneira inapelável. Depois morreu, aos quarenta e dois anos, e, como ele teria dito, acabou de vez.

                Mas nem tudo acabou porque, igual Jesus Cristo, Arlt teve seu São Paulo. O São Paulo de Arlt, o fundador de sua igreja, é Ricardo Piglia. Sempre me pergunto, o que teria acontecido se Piglia, ao invés de se apaixonar por Arlt, tivesse se apaixonado por Gombrowicz? Por que Piglia não se apaixonou por Gombrowicz e sim por Arlt? Por que Piglia não se dedicou a divulgar a boa nova gombrowicziana ou não se especializou em Juan Emar, esse escritor chileno semelhante ao monumento ao soldado desconhecido? Mistério. Em qualquer caso, é Piglia quem eleva Arlt dentro de seu próprio caixão, sobrevoando Buenos Aires, em uma imagem muito pigliana ou arltiana, mas que, tecnicamente, só acontece na imaginação de Piglia e não na realidade. Não foi um guindaste o que desceu o caixão de Arlt, a escada era larga o suficiente para manobrar, o cadáver de Arlt não era o de um campeão dos pesos pesados.

                Com isto, não quero dizer que Arlt seja um mau escritor, pelo contrário, é excelente, nem quero dizer que Piglia seja, pelo contrário, Piglia me parece um dos melhores narradores atuais da América Latina. O problema é que eu acho difícil engolir o desvario – um desvario mafioso, da pesada – que Piglia tece ao redor de Arlt, provavelmente o único inocente nesse assunto. Não posso ficar, de jeito nenhum, a favor dos maus tradutores do russo, como disse Nabokov a Edmund Wilson enquanto preparava seu terceiro martini, e não posso aceitar o plágio como uma das belas artes. A literatura de Arlt, considerada como armário ou como porão, é boa. Considerada como a sala de estar da casa, é uma piada macabra. Considerado como cozinha, promete o envenenamento. Considerada como lavabo, vai acabar nos passando sarna. Considerada como biblioteca, é uma garantia da destruição da literatura.

                Ou o que é a mesma coisa: a literatura da pesada tem que existir, mas se só ela existir, a literatura acaba.

                Como a literatura solipsista, tão em voga na Europa, hoje que o jovem Henry James voltou a cavalgar a vontade. Uma literatura do eu, da subjetividade extrema, claro que tem que existir e deve existir. Mas se só existissem literatos solipsistas toda a literatura acabaria virando um serviço militar obrigatório do minimim ou um rio de autobiografias, de livros de memória, de diários pessoais, que não demoraria em virar esgoto, e a literatura também então deixaria de existir. Porque a quem demônios interessaria as idas e vindas sentimentais de um professor?  Quem pode dizer, sem mentir como um gambá, que o dia a dia de um professor madrileno, por mais relevante que seja, é mais interessante do que os pesadelos e os sonhos e as ambições do insigne e ridículo Carlos Argentino Daneri? Ninguém com três dedos de testa. Cuidado: não tenho nada contra autobiografias, desde que quem escreva tenha um pênis de ereção de trinta centímetros. Desde que a escritora tenha sido uma puta e seja moderadamente rica na velhice. Desde que o perpetrador de tal artefato tenha tido uma vida singular. Nem preciso dizer que, entre os solipsistas e os garotos da pesada, fico com os últimos. Mas só como um mal menor.

                A terceira linha no jogo da literatura argentina atual ou pós-Borges é a que Osvaldo Lamborghini inicia. Essa é a corrente secreta. Tão secreta quanto foi a vida de  Lamborghini, que morreu em Barcelona em 1985, se lembro bem, e deixou como testamenteiro seu discípulo mais querido, César Aira, o que vem a ser a mesma coisa do que se um rato deixasse como testamenteiro a um gato com fome.

                Se Arlt, que como escritor é o melhor dos três, é o porão da casa que é a literatura argentina, e Soriano é um jarro no quarto de hóspedes, Lamborghini é uma caixa colocada em cima de um guarda-roupa no porão. Uma caixinha de papelão, pequena, com a superfície cheia de poeira. Agora, se alguém abre a caixinha, vai encontrar no interior dela o inferno. Me perdoem por ser tão melodramático. A obra de Lamborghini sempre me provoca isso. Não há como descrevê-la sem cair em exageros. A palavra crueldade cai nela como uma luva. A palavra dureza também, mas acima de tudo a palavra crueldade. O leitor desavisado pode descortinar um jogo sadomasoquista próprio dessas oficinas literárias que as almas caridosas e de vocação professoral organizam em manicômios. É possível mas não é suficiente. Lamborghini sempre vai dois passos à frente, ou atrás, de seus perseguidores.

                É estranho pensar em Lamborghini agora. Morreu aos quarenta e cinco anos, isso é, eu hoje sou quatro anos mais velho que eu. Às vezes abro algum dos seus dois livros, editados por Aira, o que não faz diferença, podem ter sido editados pelo tipógrafo ou pelo porteiro do prédio onde fica a editora, a editora Serbal, de Barcelona, e a duras penas consigo lê-lo, não porque eu ache ruim mas porque me dá medo, principalmente o romance Tadeys, um romance insuportável, que eu só leio (duas ou três páginas, nada mais) quando me sinto particularmente corajoso. São poucos os livros que eu digo que cheirem a sangue, a vísceras a fluidos corporais, a atos sem perdão.

                Hoje que está tão na moda falar dos niilistas, embora quando se fala deles as pessoas se refiram aos terroristas muçulmanos, que justamente de niilistas não têm nada, não seria mau visitar a obra de um verdadeiro niilista. O problema de Lamborghini é que errou de profissão. Teria se dado melhor como matador de aluguel, lanterneiro ou como coveiro, ofícios menos complicados do que tentar destruir a literatura. A literatura é uma máquina couraçada. Não se preocupa com os escritores. Às vezes nem percebe que eles estão vivos. Seu inimigo é outro, muito maior e muito mais poderoso, e que no final a acabará derrotando, mas essa é outra história.

                Os amigos de Lamborghini estão condenados a plagiá-lo ad nauseam, o que poderia deixar o próprio Lamborghini feliz, se pudesse vê-los vomitar. Também estão condenados a escrever mal, péssimo, exceto Aira, que mantém uma prosa uniforme, cinza, que em ocasiões, quando é fiel a Lamborghini, cristaliza em obras memoráveis, como o conto Cecil Taylor ou a nouvelle Cómo me hice monja, mas que em sua deriva neovanguardista e rousseliana (e absolutamente acrítica) na maioria das vezes só é chata. Prosa que se devora a si mesma sem solução de continuidade. Falta de crítica que se traduz na aceitação, com nuances, decerto, dessa figura tropical que é a do escritor latino-americano profissional, que sempre tem um elogio para quem lhe peça um.

                Destas três linhas, as três linhas mais vivas da literatura argentina, os três pontos de partida da pesada, temo que terminará vencedora aquela que representa com maior fidelidade a patota sentimentalista, nas palavra de Borges. A patota sentimentalista, que não é a direita (em grande parte porque a direita se dedica à publicidade e ao proveito da cocaína e a planificar a fome e os corralitos, e em matéria literária é analfabeta funcional ou se conforma em recitar versos do Martín Fierro), mas a esquerda e que o que pede a seus intelectuais é soma, o mesmo, justamente, que recebe de seus amos. Soma, soma, soma, Soriano, me desculpe, teu é o reino.

                Arlt e Piglia são ponto e vírgula. Digamos que é uma relação sentimental e que o melhor a fazer é deixá-los em paz. Ambos, Arlt sem dúvida, são parte importante da literatura argentina e latino-americana e o destino deles é cavalgar sozinhos pela pampa habitada por fantasmas. Apesar de que ali não há escola possível.

                Corolário: é preciso reler Borges de novo.

Título original: DERIVAS DE LA PESADA

in

EL SECRETO DEL MAL, ANAGRAMA, 2007

tradução: Hugo Crema

maio 18th, 2012 § Deixe um comentário

neste post aqui, a crítica do fantini é muito clara: não podemos perder de vista a maneira como o reconhecimento de um escritor vai afetando sua produção. saer é um caso latino-americano raro de falta de deslumbramento com as pilhas de ouro de tolo que é a fama. grande parte dos outros, talvez até bolaño, perde a mão do próprio programa (se é que um dia houve um) pra premiações e encomendas. lml.

maio 4th, 2012 § Deixe um comentário

traduzi mais uma entrevista do bolaño, aqui. lml.

março 25th, 2012 § Deixe um comentário

Los taconeos, el acento metálico de las armas al ser cargadas o descargadas, el tintinear de las botellas, los gritos, las órdenes, el roce de las esposas, la caída del agua de los retretes, un encendedor al prender, las toses, los pedos. Pienso que ése era el primer escalón de ruidos. Tenían por característica que se los podía aislar, cada uno transparentaba una acción que yo imaginaba y reconstruía sobre la pantalla de los párpados vendados.

Marimón, Antonio (1987): “Lorera” en El antiguo alimento de los héroes, Buenos Aires-Montevideo, Puntosur, 26-28. aqui. lml.

março 18th, 2012 § Deixe um comentário

webjet conecte-se. marques/hugo. classe: y. assento: 4L. WH 6694 160CT. De: SAO – Guarulhos (GRU). Para: Brasília (BSB). Partida 08:20. ETKT: 1010-843578.

bilhete achado na página 109 do livro Fogwill: Cuentos Completos (Alfaguara, 2009), marcando o conto la larga risa de todos esos años. lml.

março 17th, 2012 § Deixe um comentário

Y temblar ante la posibilidad de toda una camada de taolinistas clónicos seducidos por cierta facilidad en estilo y procedimientos. Autores que estarán más cerca del usuario que otra cosa.

diatribe de Rodrigo Fresán, clarividente, aqui. lml.

março 8th, 2012 § 2 Comentários

carlito de azevedo fala na orelha de noites de flores sobre velocidade e ponto de vista das 3 focalizações que constituem o livro (a imobilidade da população medrosa, a lentidão de pessoas pontuais e o frenesi da televisão), o que ele não fala é que em nenhum momento essas focalizações se interpenetram ou se sobrepõem; há um encadeamento e uma separação muito rígidos entre essas focalizações, e as transições entre cada uma são feitas sem prejuízo, sem desarticular o livro, por mais disparatados que sejam os episódios e por mais que a manipulação dos elementos beire o imprevísivel, embaralhe, atribua disparatadamente importância a certos detalhes e a outros não: um sequestro que merece só um parênteses no 1º capítulo, de repente, toma o livro inteiro, ao mesmo tempo que o velhinho e a velhinha do começo somem pra sempre, velhinha essa que a gente só descobre depois do meio do livro que é, e sempre foi, cega. ou seja, é nessa marcação cerrada, aparentemente aleatória, com detalhes que o livro ganha forma (forma estapafúrdia¹, diga-se). ele não ganha forma por meio da sequência da trama, essa é frouxa. no mais, o narrador me lembrou o pseudodistanciamento dos narradores em 3ª do Bellatín. lml.

¹estapafúrdia tomando cuidado pra não chegar ao inverossímil.

março 6th, 2012 § Deixe um comentário

diz-se que a crise econômica inaugurou todo um gênero n’argentina. nesse sentido, noites de flores¹ é mais sutil e mais efetivo do que las viudas de los jueves e do que o filme cama adentro. mais sutil: menos figurativo²: menos genérico: mais apostando no individualismo de ponto de vista em face à massificação promovida pela tevê que fabrica e valida alguns dos efeitos da crise. livro meio estrambótico, genial. lml.

¹meu 1ª aira da vida, comprado no bacião da laselva, nova fronteira, 2006, orelha do carlito azevedo

²ou seja, antes problematizando os emblemas da crise do que recorrendo a eles

março 6th, 2012 § Deixe um comentário

A noite chegou um oficial revolucionário à casa, parente de alguém, com o uniforme cheio de terra, e disse que tinha visto com os próprios olhos o seguinte: o cadáver do General Orozimbo Barbosa, que tinha sido heroi na guerra do pacífico e tinha tido a má ideia de continuar sendo leal a Balmaceda, nu, amarrado a uma cadeira de palha, com o pinto, disse, cortado e posto na boca, como se fosse um charuto, e os soldados desfilavam em frente a ele, cobrindo-o de xingamentos e cuspe, sujos, meio bêbados, mas felizes por terem ganho a batalha e por a guerra ter terminado.

Edwards, Jorge. 2004. El inútil de la família. Alfaguara. Santiago, Chile. lml.

março 5th, 2012 § Deixe um comentário

há um ano, fui contratado pra dar umas aulas de inglês instrumental. turma bizarra, oportunismo da dona da escola, não sei; dar aula em escola pequena de inglês passa por se amigar com o dono: resultado, achei tudo muito esquisito e me demiti, o que sobrou comigo foi o exemplar de el inútil de la família, do jorge edwards, que a dona tinha me emprestado. de cara já é bizarra a flutuação entre 1ª e 2ª pessoa. lml.

¹de 2004, um dos primeiros da alfaguara com esse tipo de projeto visual, bizarro pensar que as capas deles nem sempre foram assim

março 3rd, 2012 § Deixe um comentário

(and it wouldn’t have made any difference, todd rundgren, no som, quebraram meus headphones)

já falei, meu projeto é ganhar o herralde em trinta anos. lml.

fevereiro 28th, 2012 § Deixe um comentário

(meu amor me agarra & treme & chora & mata, do jards macalé, no som)

traduzi mais uma coisa sobre Bolaño pro Estrela Selvagem. lml.

mais uma profissão de fé, o prólogo do Borges pra Invenção de Morel. lml.

fevereiro 9th, 2012 § 4 Comentários

Stevenson, hacia I882, anotó que los lectores británicos desdeñaban un poco las peripecias y opinaban que era muy hábil redactar una novela sin argumento, o de argumento infinitesimal, atrofiado. José Ortega y Gasset ­La deshumanización del arte, I925­trata de razonar el desdén anotado por Stevenson y estatuye en la página 96, que “es muy difícil que hoy quepa inventar una aventura capaz de interesar a nuestra sensibilidad superior”, y en la 97, que esa invenaión “es prácticamente imposible”. En otras páginas, en casi todas las otras páginas, aboga por la novela “psicológica” y opina que el placer de las aventuras es inexistente o pueril. Tal es, sin duda, el común parecer de 1882, de I925 y aún de I940. Algunos escritores (entre los que me place contar a Adolfo Bioy Casares) creen razonable disentir. Resumiré, aquí, los motivos de ese disentimiento.
El primero (cuyo aire de paradoja no quiero destacar ni atenuar) es el intrinseco rigor de la novela de peripecias. La novela característica, “psicológica”, propende
a ser informe. Los rusos y los discípulos de los rusos han demostrado hasta el hastío que nadie es imposible: suicidas por felicidad, asesinos por benevolencia, personas que se adoran hasta el punto de separarse para siempre, delatores por fervor o por humildad… Esa libertad plena acaba por equivaler al pleno desorden. Por otra parte, la novela “psicológica” quiere ser también novela “realista”: prefiere que olvidemos su carácter de artificio verbal y hace de toda vana precisión (o de toda lánguida vaguedad) un nuevo toque verosímil. Hay páginas, hay capítulos de Marcel Proust que son inaceptables como invenciones: a los que, sin saberlo, nos resignamos como a lo insípido y ocioso de cada día. La novela de aventuras, en cambio, no se propone como una transcripción de la realidad: es un objeto artificial que no sufre ninguna parte injustificada. El temor de incurrir en la mera variedad sucesiva del Asno de Oro, de los siete viajes de Simbad o del Quijote, le impone un riguroso argumento.
He alegado un motivo de orden intelectual; hay otros de carácter empírico. Todos tristemente murmuran que nuestro siglo no es capaz de tejer tramas interesantes; nadie se atreve a comprobar que si alguna primacia tiene este siglo sobre los anteriores, esa primacía es la de las tramas. Stevenson es más apasionado, más diverso, más lúcido, quizá más digno de nuestra absoluta amistad que Chesterton; pero los argumentos que gobierna son inferiores. De Quincey, en noches de minucioso terror, se hundió en el corazón de laberintos , pero no amonedó su impresión de unutterable and self-repeating infinities en fábulas comparables a las de Kafka. Anota con justicia Ortega y Gasset que la “psicología” de Balzac no nos satisface; lo mismo cabe anotar de sus argumentos. A Shakespeare, a Cervantes, les agrada la antinómica idea de una muchacha que, sin disminución de hermosura, logra pasar por hombre; ese móvil no funciona con nosotros. Me creo libre de toda superstición de modernidad, de cualquier ilusión de que ayer difere íntimamente de hoy o diferirá de mañana; pero considero que ninguna otra época posee novelas de tan admirable argumento como The turn of the screw, como Der Prozess, como Le Voyageur sur la terre, como ésta que ha logrado, en Buenos Aires, Adolfo Bioy Casares.
Las ficciones de índole policial­otro género típico de este siglo que no puede inventar argumentos­refieren hechos misteriosos que luego justifica e ilustra un hecho razonable; Adolfo Bioy Casares, en estas páginas, resuelve con felicidad un problema acaso más dificil. Despliega una Odisea de prodigios que no parecen admitir otra clave que la alucinación o que el símbolo, y plenamente los descifra mediante un solo postulado fantástico pero no sobrenatural. El temor de incurrir en prematuras o parciales revelaciones me prohíbe el examen del argumento y de las muchas delicadas sabidurías de la ejecución. Básteme declarar que Bioy renaueva literariamente un concepto que San Agustín y Orígenes refutaron, que Louis Auguste Blanqui razonó y que dijo con música memorable Dante Gabriel Rossetti:

I have been here before,
But when or how I cannot tell:
I know the grass beyond the door,
The sweet keen smell,
The sighing sound, the lights around the shore…

   En español, son infrecuentes y aún rarisimas las obras de imaginación razonada. Los clásicos ejercieron la alegoría, las exageraciones de la sátira y, alguna vez, la mera incoherencia verbal; de fechas recientes no recuerdo sino algún cuento de Las fuerzas extrañas y alguno de Santiago Dabove: olvidado con injusticia. La invención de Morel (cuyo título alude filialmente a otro inventor isleño, a Moreau) traslada a nuestras tierras y a nuestro idioma un género nuevo.
He discutido con su autor los pormenores de su trama, la he releido; no me parece una imprecisión o una hipérbole calificarla de perfecta.

fevereiro 8th, 2012 § Deixe um comentário

Hoje à tarde, conversando com o Lucas Sena, rememorei a importância da Editora Iluminuras, do argentino Samuel León, pra divulgação de literatura latino americana no país. Só de cabeça eu lembrei:

que as traduções que a Jahn fez do Píglia saíram primeiro pela Iluminuras pra depois serem reeditadas pela cia

que o Bellatín saiu primeiro na Iluminuras

que o Alan Pauls saiu pela Iluminuras em 96

que o Luis Gusmán saiu pela Iluminuras em 90, em 2001 e em 2009

que a fabulosa antologia de literatura argentina Os Outros, organizada pelo Gusmán, saiu pela Iluminuras

lml

fevereiro 6th, 2012 § Deixe um comentário

(pelo amor de deus, do clube da esquina, no som)

fico pensando no rigor exemplar de Sueño de los heroes, em como, mesmo com o livro sendo soturno em quase todas as partes, a urdidura do texto é limpa, reconhecível nos seus elementos. ou seja, a representação ser soturna não exime o fraseado de não pegar atalhos. lml.

Próximo post

janeiro 22nd, 2012 § Deixe um comentário

há um ano, ouvi que o agosto/octubre de que eu tinha gostado não era mais do que recenseamento de ritos de passagem adolescentes. hoje, lendo perseguição e cerco a juvêncio gutierrez, um livro com um narrador parecido¹ (menino de 13 anos mei ilustrado), concluo que são livros ñ sobre virar homem, mas sobre busca de uma masculinidade que nunca foi alcançável. no perseguição e cerco fica mais claro: a herança é o heroísmo gaúcho, a maneira de lidar é tão instável quanto a do Borges. lml.

¹com certeza um livro mais ambicioso

dezembro 24th, 2011 § Deixe um comentário

(san vicente, m. nascimento c/ m. sosa, no som)

céu negro (r. figueiredo, 2001), el caso berciani (a. pauls, 1992) e boca de lobo (s. chejfec, 2000) têm similaridades. trabalham como física a diferença entre favela e cidade: a favela como espaço pré-consciente, excêntrico e descentralizado, distante, limítrofe, desarticulado. é compreensível que, em 2011, desemboquemos na famigerada expressão conglomerado subnormal. lml.

dezembro 23rd, 2011 § Deixe um comentário

em algum ponto da dublinesca, o ribas fala do homem como ser de espera, ou seja, que significa o intervalo entre ele e as coisas. autopista del sur obvia esse movimento: a fila é um lugar onde espaço e tempo deformam. as personagens sem nome perdem a conta dos dias e dos metros avançados, é esse o ponto de partida de uma sistematização que chega às raias do militarismo e se dissolve. lml.

é muito difícil falar do livro + importante

dezembro 23rd, 2011 § Deixe um comentário

(känslan som gror, dungen, no som,

piadas saindo de um carro de som na rua)

ainda me impressionam los mejores relatos latinoamericanos (alfaguara), ganhei em 2002. até hoje ali tem o cortázar e o rulfo que eu mais curto, um borges de entressafra, um bioy casares. ñ descubro se é uma edição infantojuvenil. capa começada a amarelo-desbotar: cacto e sol asteca contra o céu e o chão amarelo. papel jornal, diagramação simplória. esses 4 contos se desdobraram em (re)leituras infinitas de outras coisas, o resto da seleção (carpentier, garcía márquez) não. lml.

dezembro 19th, 2011 § Deixe um comentário

se balizarmos por Piglia, o Pauls pende mais pro Puig do que pro Saer. embora constitutivamente similares na sua hipersignificação, as verborragias do Pauls e do Saer tardio respondem a propósitos distintos. mas bem que na página 317 d’el pasado o bonairense homenageia o santafecino de unidad de lugar.

Tocó un timbre y esperó unos segundos, miró su propia sombra en el vidrio esmerilado de la puerta, hasta que una voz impaciente le exigió su nombre a través de un intercomunicador.

lml.

Onde estou?

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