o meu grifo
novembro 16th, 2011 § Deixe um comentário
O fato de o autor ser meu aluno é mais um doce maná a cair do céu nesses anos em que atravessamos o deserto brasileiro em busca da terra prometida
Deonísio da Silva (2001), prefaciando o 1º livro de Whisner Fraga, agraciado em concurso das Edições Galo Branco;
A premiação em 1977 deste primeiro – oficialmente – livro de Deonísio da Silva, por parte da Fundação Cultural de Brasília, é o reconhecimento definitivo de um certo tipo de literatura que tem se disseminado ultimamente entre nós, e isso de Dalton Trevisan a Rubem Fonseca, literatura esta direta, sem circunlóquios (…) que tem se constituído em “escritores da violência”
Antonio Holfeldt, prefaciando Exposição de Motivos;
Suspender Feliz ano novo foi pouco. Quem escreveu aquilo deveria estar na cadeia e quem lhe deu guarida também. Não consegui ler nem uma página. Bastaram meia dúzia de palavras. É uma coisa tão baixa que o público nem devia tomar conhecimento
Senador Dinarte Mariz comentando o 5º livro de Rubem Fonseca, na Folha de São Paulo, em 7.1.77. Excerto citado na orelha da reedição do livro realizada pela Cia das Letras em 1991.
conclusão: a ditadura censura um livro e esse livro serve de influência pro livro ganhador de um prêmio outorgado por fundação, o autor do livro ganhador do prêmio outorgado por fundação prefacia o livro (sem ficha catalográfica ou isbn, composto em times new roman 12, isso pra não falar dos méritos literários questionáveis) de seu aluno. jabá é pouco.
novembro 13th, 2011 § 2 Comentários
dá pra dizer que, dentro do projeto amores expressos, apenas do fundo do poço se vê a lua e cordilheira (outra livro com sua importância esquisita na minha vida) foram significativos na trajetória de publicação dos respectivos autores. joca reiners terron recorre a temas mais do que consagrados, o romance de ambientação egípcia (tributário do romance de índias) e o jogo do duplo. O uso das famigeradas referências pop, do estereótipo do travesti, das descrições científicas não são demérito pro livro, que dilui bem esses artifícios numa trama bem amarrada e evocativa. é sério isso, é visível certa coesão mais de estrutura do que de enredo, que se dá via uma narradora que ñ se preocupa com a síndrome de humbert humbert (mais recentemente de patty berglund): seu vocabulário assume a improbabilidade de alguém que morou vinte anos no Egito falar daquele jeito. gostei muito de a vida da protagonista ser literalmente uma glosa nas margens de um paperback. a ambientação é legal também. é engraçado e antiquado isso de ter um punhado de livros passados no egito marcando minha vida. lml.
novembro 6th, 2011 § Deixe um comentário
(out of tune, real estate, no som)
Como o mundo – e os subterrâneos da cena paulistana de literatura – é muito pequeno, depois do post anterior, fuçando a esmo, achei esse livro aqui, de 2007, editado pela Demônio Negro, do supracitado Vanderley Mendonça. Daria pra esboçar um painel relacionando essas pessoas (Bortolotto, Bressane, Freire, Mattoso, Mirisola, pra ficar nos próceres) e editoras (Estação Liberdade, SeloZero, Ciência do Acidente, Kafka, Baleia, Amauta, Annablume, Edith, Demônio Negro) que moveram essas engrenagens nos anos 00. Sinto que, meio que sem querer, esse meu recenseamento do trânsito da geração 90 pra 00 acaba sendo uma crônica muito paulistana de coisas que repercutem hoje, pulverizadas e assimiladas¹.
Não sei se um recenseamento da produção mineira ou paraibana² do período seria tão acessível assim entre distribuição física e veiculação internética. Sou brasiliense³. lml.
¹ em grandes editoras ou em rebelião ou em agrafismo
² quanto mais pro norte mais onipresença de Nilto Maciel
³ a produção daqui sai da LGE, da Thesaurus, da Geração Editorial, da Girafa, pra não falar em xerox pura e simples
novembro 6th, 2011 § Deixe um comentário
Muito bem cuidada a parte gráfica do Encarniçado (João Filho, 2004), do logo esquisito da editora ao papel à fonte à orelha pelo Evandro Affonso Ferreira escalafobético. A finita editora Baleia está virando um graal desse meu esforço de chafurdar na internet atrás da literatura mocosada da década de 00. Quero comprar Mal pela raiz (Jorge Cardoso, 2004) e Pornografia pessoal de um ilusionista fracassado (Nilo Oliveira, 2004) e isso, meio não planejado, completaria o catálogo deles. Não sei se um dos editores é esse Jorge Cardoso, outro é Vanderley Mendonça da igualmente finita e genial Amauta. Encarniçado termina com um agradecimento da editora ao Marcelino Freire. lml.
eles eram poucos cavalos II
novembro 1st, 2011 § Deixe um comentário
Submeti este post aqui como coluna de um outro blogue e o editor me fez 2 perguntas, respondi pra ele, colo aqui:
Pergunta: A segunda nota ficou como um cutucão no editorial da Cia (das letras) - e a primeira no nosso próprio ato desordeiro, ou é impressão minha?
Resposta: Quanto às notas: a segunda foi mais um cutucão à falta de bolas de outras editoras de publicar literatura internacional decente, e dos JALBC de ler literatura boa fora da hegemônica Cia das Letras. Já a primeira foi uma referência à aparição do Mutarelli na geração 00, ele publicou posts do blogue novaiorquino dele, e ao romance de Vinícius Castro, que tem postagem de blogue no meio.
Ele fez uma pergunta para a qual eu já vinha ruminando uma resposta longa: O JALBC é um impressionista impressionado, mas não impressionante. Por que tu acha que essa história de escritor recluso, do gênero Pynchon, não funciona na nova geração? Ou tu corre o risco de ficar superexposto ou ser insignificante, não é?
Resposta curta: a dita literatura jovem brasileira® apropria-se de forma acrítica e para fins de pirotecnia publicitária de procedimentos, situações e até personagens tornados famosos pelos ditos escritores pós-modernos¹, cepa já extinta, digerida e exaurida aos dias de hoje. Ou seja não cabe pensar em privacidade porque a publicidade é a língua franca do metiê literário, o anverso de uma moeda de troca cujo verso, infelizmente, não é o rigor criativo. lml.
¹pynchon, roth, sebald, auster, bernhard, vila-matas, aira, foster wallace, coetzee, bolaño
pra ñ comentar
outubro 22nd, 2011 § 5 Comentários

(hey hey my my, do neil young, no som)
umas coisas que eu li p’rum post sobre Tadeu Sarmento ajudaram a clarear questões sobre a Geração Zero Zero (2011). explico, a seleção não é ruim, só parte d’um recorte besta pros dias de hoje, significativo lá em 2004/2005, quando gente como Marcelo Benvenutti, João Filho e Paulo Sandrini, na crista da onda, citavam Wir Caetano, Sérgio Fantini e Rique Aleixo em entrevistas e eram publicados por meios próprios ou por editoras minúsculas de SP e PoA, tipo a Kafka, a Barracuda e a Ciência do Acidente. devia ser bonito ser publicado pelos próprios meios. em 2004, já tinha saído Até o Dia em que o Cão Morreu, a livros do mal era finita ou quase, o Michel Laub andava pelo 2º ou 3º romance. mas era uma transição: embora os ecos da cardosonline já se dissipassem, era cedo pra identificar a avalanche gaúcha do fim da década se acoplando ao sempiterno séquito de Marcelinos Freires. assim, num vácuo de reordenação brotaram e começaram a se afirmar nomes que de lá pra cá talvez tenham virado taxistas e se recusado a ter conta no facebook, ou talvez publiquem em segredo e sejam resenhados mais em segredo ainda. a antologia A Visita (2005) publicada no meio desse vuco-vuco pela Barracuda traz os iniciantes Lísias, Laub e Bracher.
chover no molhado dizer que a configuração atual do campo literário deve mais à 2ª metade da década do que à 1ª, que é a presente na Geração Zero Zero. se a Geração Noventa: os transgressores (2003) peca por afoiteza de novidade (ignora o começo dos noventa, antologa o começo dos dois mil), oito anos depois, o catálogo do Nelson de Oliveira peca por defasagem. mas tudo bem. lml.