março 3rd, 2012 § 2 Comentários
O livro de Perec vai na contramão dessa tradição: as coisas não determinam a existência dos indivíduos, mas a descrição das coisas — os objetos, os ambientes, os espaços — leva a uma existência literária mais refinada do indivíduo, porque caberá em grande parte ao leitor interpretar a intensidade do contato desse indivíduo com as coisas.
Klein, Kelvin Falcão, resenhista e clarividente. lml.
a língua do jota
dezembro 17th, 2011 § Deixe um comentário
Jorge Luis Borges em carta a Jorge Sureda, junho ou julho 1925:
Estou procurando uma maneira de ir além desse semirrenome em que estou metido, essa semifama de homem literário que é lido por outra gente literária, mas que não chega ao público mais amplo. Vou voltar à simplicidade crioula de expressão e ao vocabulário austero, despido de ornamentos.
Williamson, Edwin. Borges: uma vida. Trad. Pedro Maia Soares. Cia das letras. 2011.
outubro 8th, 2011 § 1 Comentário
(army arrangement pt. 2 , fela kuti, no som)
Conversas Apócrifas com Enrique Vila-Matas é um livro bem explicadinho, além das dez páginas iniciais dedicadas a justificar/destrinchar o processo de composição, páginas curtas norteiam a conversa em tópicos: Amigos, Tradição e Leituras, Crítica, Política, Vanguardas e Metaficção. Neste sentido, é desestabilizador e inopinado o depoimento transcrito de Rita Malú. Literário até a pleura, cheira a Bolaño, o desfecho perfeito pr’um livro que fala o tempo todo de mais-valia da informação; por mais que o Falcão Klein situe este encontro¹, o trechinho tem um jeitão deslavadamente repasteurizado². Ou não. É a melhor parte do livro.
Aponto uma coisa besta pra ela não passar despercebida, o percurso crítico do livro é muito mais o do Kelvin Falcão do que o do Vila-Matas. Não sou lá esses leitores de Vila-Matas, mas aquele recorte de nomes e datas me é conhecido, dá pra ouvir as risadas ao longo da introdução. Walter Benjamin e os poderes curativos da narrativa estão n’El Mal de Montano, mas estão também em passagens do blogue do Kelvin, que deve conhecer a história original, não só a mediada. O livro é intrincado, funde e borra, recorre a jogos que o próprio Vila-Matas propõe. Achei uma apropriação mais honesta e reverente, mais profunda e mais precisa do que Se um de nós dois morrer, outra vítima da coqueluche Vila-Matas, da tsunami literatura européia. lml.
¹ Rita Malú, a amiga de Vila-Matas tantas vezes homenageada em seus livros, apesar da idade, ofereceu-me, com bastante energia, um relato em primeira mão que aproveito para incluir neste volume. (…) Algumas palavras se perderam, por inúmeras razões: desde inépcia daquele que escutou e transcreveu até a velocidade do espanhol daquela distinta senhora.
²(Falcão Klein fala em sua tese sobre a importância de Rita Malú).
outubro 7th, 2011 § Deixe um comentário
A montagem é um choque de realidade naquilo que se convencionou chamar realidade – ou ainda: a falsa ficção é tão arbitrária quanto a ficção que se pretende original, mas, em sua queda, em seu desvelamento, na descoberta de seu procedimento, a montagem expõe a sua construção e o absurdo da matriz da qual se origina.
(Klein, Kelvin Falcão. Conversas Apócrifas com Enrique Vila-Matas. Modelo de Nuvem. 2011)
grifo meu. lml.