as razões pra se jogar um jogo com detonado do lado

maio 9th, 2012 § Deixe um comentário

(teclados em fúria, furadeira, ecos)

digamos que trinta por cento da dificuldade de falar de IJ vem da maçaroca de considerações que outros fizeram antes da minha própria leitura, maçaroca essa que influencia essa minha leitura, dez por cento vem de dificuldades recentes de fala e dificuldades de validar esse blogue como espaço dessa fala, sessenta por cento é o livro em si, a dificuldade de rastrear certas costuras e certos planos de fundo que só são explicitados quarenta páginas depois da cena que ajudaram a transmitir. o panorama é de fato mais do que vasto, dfw usa núcleos de personagens diferentes para passear por temas recorrentes (confinamento, disciplina, drogas, solidão, diversão, tédio) e esmiuça esses núcleos em caracterizações que, ao mesmo tempo em que são robustas, aparecem espalhadas no texto. da mesma maneira, narrações retrospectivas se imiscuem a narrações presentes graças a uma mixórdia de tempos que se entrecuzam: um dos planos de fundo é o da subsidiarização dos anos, empresas conseguem comprar os direitos do ano de cada ano. a maioria da ação se desenrola no Y.D.A.U.. B.S. (Before Subsidiarization) é um marco temporal. mas falar da megalomania do livro é chover no molhado, tanto já foi feito por outros quanto não interessa.

não interessa quantas linhas narrativas é possível sustentar ao mesmo tempo sem escorregar, quantos personagens distintivos o suficiente para serem mais do que figurantes. a minha opinião é a de que o que importa é o quanto, apesar disso tudo, onde o livro vence é na caracterização e na observação minuciosas, até porque, em última análise, é um livro sobre uma família, que é tão mais recompensador que todos os outros porque consegue ressignificar, ora reafirmando estereótipos, ora indo contracorrente, de maneira satisfatória num plano físico (gestual, de ações, de descrição de lugares) e num plano psicólogico que não abobalha nem leitor nem personagem. exemplo disso é a parte que terminei de ler agora (pág. 287) em que a descrição de uma casa temporária de reabilitação é feito numa terceira pessoa parcial, por meio do vocabulário e do raciocínio do encarregado da casa (Don Gately), a questão é que não são simples produtos mentais dele, ele aparece em cane e é também deglutido por essa narração. ou seja, o brilho está não no exagero, mas na observação concisa e parcial daquilo que é minimamente distintivo, a massa crítica de combustível pra fazer o livro andar. se eu conseguir, depois falo mais. lml.

maio 9th, 2012 § Deixe um comentário

And was I nervous, young sir J.O.I.? With the one and only Himself there in all his wooden glory there, watching, half in and out of the light, expressionless? I was not. I was in my body. My body and I were one. My wood Wilson from my stack of wood Wilsons in their trapezoid presses was a sentient expression of my arm, and I felt it singing, and my hand, and they were alive, my well-armed hand was the secretary of my mind, lithe and responsive and senza errori, because I knew myself as a body and was fully inside my little child’s body out there, Jim, I was in my big right arm and my scarless legs, safely ensconced, running here and there, my head pounding like a heart, sweat purled on every limb, running like a veldt-creature, leaping, frolicking, striking with maximum economy and minimum effort, my eyes on the ball and the corners both, I was two, three, a couple shots ahead of both me and the hapless canine client’s kid, handling the dandy his pampered ass.

monólogo fabuloso em infinite jest. lml.

abril 30th, 2012 § Deixe um comentário

independentemente do total de páginas, quando lá pra duzentos o dfw não avançou um milímetro na trama, ainda está na caracterização exaustiva, você começa a desconfiar de que é isso mesmo, não vai avançar, vai revolver e caracterizar e armar diálogos e, pelo menos, esperamos, mais um monólogo tão absurdamente genial quanto o do pai de Himself lá pela 160. lml.

abril 20th, 2012 § Deixe um comentário

(mass romantic, dos new pornographers, no som)

pra efeitos de comparação, a impressão que fica é a de que por mais que estivesse escrevendo há dez anos esse livro, dfw ainda estava nas preliminares de pale king¹, não se nota o impulso unificador nem as costuras necessárias entre cenas para levar esse impulso a cabo, como é o caso de infinite jest, em que, pra discutir saturação, ele ambienta, senão num futuro, num presente alternativo. lml.

¹as notas explicativas do editor ao final lembram aquela enciclopédia da pixar que nos ensina a achar o m wazowski de snorkel em pleno procurando nemo

abril 11th, 2012 § Deixe um comentário

pale king: um pai dá um dinheirinho pro filho ajudá-lo a limpar o jardim, numa tentativa de aproximação, o filho faz uma pergunta ao pai, ñ é respondido, deixa pra lá. teatro: um homem encontra na rua uma mulher que faz a ele a pergunta em que está cifrada toda a voragem que consumirá o livro.

há uma diferença de densidade aí, inclusive.

o no nonsense do pale king é o princípio de elegância do próprio dfw: a economia partindo de um raciocínio pedestre e ñ enfático, eventualmente elaborado. a verborragia lírica de teatro às vezes beira a gratuidade, me empapuça, ainda ñ terminei. lml.

abril 4th, 2012 § Deixe um comentário

(familj, do dungen, no som)

lá pros 15%, pale king ainda ñ engatou, mas já impressiona a maneira como o narrador, sempre em 3ª, sempre personalista, se aproxima e se afasta das cenas, ora julgador, ora condescendente, fazendo questão das descrições que o tornaram famoso, minuciosamente físicas de movimentos tão fugidios quanto: “padrões de calos nos dedos complexos e ligeiramente repulsivos, por tocar o banjo amadoramente, nas horas vagas”. lml.

abril 2nd, 2012 § Deixe um comentário

sobre pale king já dá pra dizer que foi muito esquisita, praticamente uma repetição extradiegética (hahahahahaha, li essa por aí, achei engraçada e incorporei ao vocab), a sincronia entre a primeira cena, muito bem escritas intromissões certeiras de pensamentos e fórmulas contábeis ao curso da cena, da vista da janelinha do avião, dos passageiros e do pouso e a minha própria vista e pouso. lml.

fevereiro 24th, 2012 § Deixe um comentário

não é que eu não goste do dfw. eu gosto. acho besta o cultinho pseudoacadêmico em torno e me frustra não conseguir abranger nem 10% do que o cara conseguiu enxergar. acho que ninguém consegue. com certeza nenhum brasileiro consegue (o c. galindo consegue mais que todos, sem dúvida). o que acontece é que há esses momentos¹ em que o brilhantismo é ao mesmo tempo inegável e acolhedor, quase cheever. lml.

¹acho que mais frequentes no jornalismo dele.

janeiro 1st, 2012 § Deixe um comentário

o particularismo d’el pasado: habilidade de usar um elemento específico e externo ao texto como referência, nem sempre de maneira estrutural, muitas vezes como exemplo¹, desconexo. em ij existe esse particularismo. e existe outro particularismo, ainda + preciso, gestual², incorporado ao caudal da ação. penso nos outputs do corpo em face a estímulos externos. lml.

¹”agitando los brazos como aspas frenéticas.” (pág. 233)

²”everyone stares into the middle distance, stunned with fatigue.” (pág 95)

dezembro 28th, 2011 § Deixe um comentário

(frio em SBC)

dfw plasma no ij a convicção de que a língua ñ está dicionarizada. de que só na hora da enunciação é que se firmam seus mecanismos de elucidação. ler, então, é situar contra o texto. nesse panorama, a invenção verbal surge quase espontânea, ñ funcional, na contracorrente do beletrismo. lml.

dezembro 26th, 2011 § 2 Comentários

uma crítica que já li ao sebald é ao movimento deliberado de fazer o leitor se sentir inteligente (ou seja, sentir confirmada sua inteligência), ao invés desafiá-lo. pr’além do sebald, que eu não li, esse é um teste aplicável sempre, no qual o alan pauls às vezes não passa. um teste ao qual submeter o dfw. lml.

agora vai: I started an infinite joke: a barrel of monkeys worth of fun to read

dezembro 26th, 2011 § Deixe um comentário

já tentei adentrar o IJ , sempre pelo prefácio clarividente do Dave Eggers, que lista os meus próprios preconceitos e receios. são eles:

  1. readability;
  2. tecnicismos;
  3. genialidade, corporalidade, despretensão calculada;
  4. obra como um pedágio, incontornável;
  5. literatura americana como monólito autocentrado;
  6. constância: 1079 páginas escritas em 3 anos.

aqui uma relação extensa de resenhas precoces do livro;

aqui uma wiki extensa do livro;

lml.

e, de repente, entra um pterodátilo pela janela e carrega a Vivianne

dezembro 21st, 2011 § Deixe um comentário

(fallen eagle, stephen arthur stills, no som)

And yet Hope has been wholly obdurate and unyielding on this point, insisting that it was I who was “the one who’s asleep,” and if I could or would not acknowledge this, my refusal to “trust” her indicated that I must be “angry at [her]” over something, or perhaps unconsciously wished to “hurt” her, and that if anyone around here needed to “make an appointment” it was myself , which according to Hope I would not hesitate to do if my respect and concern for her slightly outweighted my own selfish insistence on being “right”.

WALLACE, David Foster. Oblivion. in Oblivion. Little, Brown and Company. 2005. lml.

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