março 12th, 2012 § Deixe um comentário
nunca fui partidário de salinger, ainda mais depois que eu conheci cheever. justamente porque enquanto o cheever, na sua opção por formas conservadoras, consegue subverter e extrapolar expectativas, o salinger, além de tentar obscurecer que optou por formas conservadoras, não consegue atingir nem os resultados esperados¹. lml.
¹suas personagens são menos que nítidas, frutos de generalizações etárias
fevereiro 21st, 2012 § Deixe um comentário
um post antigo mencionou autores desses experimentais a que o cheever sobreviveu. agora penso que ele também sobreviveu à 2ª guerra mundial, à da coreia, à do vietnam, ao nixon e às crises do petróleo entendendo que literatura não é pão pão queijo queijo, que a observância de objetos concretos transborda o relato: vai ao cúmulo de iluminar as situações pra que o todo exceda o tamanho das partes. lml.
aquele conto do Schroeder, de dicção Bolañana, sobre os recepcionistas de hotel
fevereiro 8th, 2012 § Deixe um comentário
Eu tenho medo de por minhas personagens pra exercer profissões que não me são pertinentes. Há uns trâmites em cada profissão que, caso eu passe por alto, podem ficar representados insuficientemente. É claro que pra tudo há uma representação mínima que já dá pro gasto, que é a opção do destemido Cheever, ele crava a representação e segue adiante¹. lml.
¹ref.: Artemis, the honest well digger.
fevereiro 7th, 2012 § Deixe um comentário
(sleeping spray, do high llamas, no som)
espero que tenham incluído the jewels of the cabots na coletânea da cia das letras. até agora meu preferido, aprofunda e homogeniza o procedimento de characters that will not appear in my next novel em torno de um narrador, que é o próprio Cheever, que opta por uma linha narrativa quebradiça, alheia ao encadeamento episódico¹ de praxe, trazendo a tona uma preocupação minha: discricionariedade do narrador e não-confiabilidade das fontes. lml.
¹os melhores contos do cheever são aqueles em que ele extrapola esse encadeamento, goodbye, my brother, por exemplo
janeiro 24th, 2012 § Deixe um comentário
(eye on the sky, alan parsons project, no som)
É interesse do Cheever dissecar como um estado de felicidade pode ser tocado, contaminado pela miséria dos outros. Isso é nítido em Scarlet moving van e em The enormous radio mas em The seaside houses não. Em The seaside houses, a felicidade do Ogden é corrompida pelas suposições feitas em cima do locatário da casa que ele aluga: foto e garrafas de uísque encontradas em lugares escusos. lml.
janeiro 19th, 2012 § Deixe um comentário
(because, dos beatles, no som)
mesmo em 1982 já havendo no mundo Gravity’s Rainbow, The Recognitions, La Vie mode d’emploi, Avalovara, percebo que o Cheever que morre em 1982 é o mesmo que era chamado pela professora pra frente da sala pra contar histórias, um Cheever que se gaba de sua capacidade de prolongar essas histórias pra engambelar a professora até chegar o recreio. me identifico com esse credo na carpintaria do negócio, trabalho braçal e visão límpida passando ao largo do insight e da teoria. lml.
janeiro 18th, 2012 § Deixe um comentário
This cynicism, although heightened by college, sprang from a much deeper source. He had seen his parents struggle to work themselves up from oblivion and poverty and had seen the pleasure they took in his graduation from college and, being the object of their pleasure, he knew how unfounded it was. In the history of communities there are few migrations as futile as the suburban pursuit of respectability. Its children are bound to be cynical. In college it was a mark of character like cowardice or valor. His first year in the city encouraged this.
His biography, so far, compared to the lives of the exiled, the persecuted, the poor, the maimed, would lack all violence. Much of the cynicism sprang from a consciousness of his life’s insignificance and lack of precedence. He often felt the necessity of identifying himself with something more than a faded shirt, a peculiar walk, something like Alexander’s Polish accent and stories of famine or the elevator man’s finger chopped off by a machine. Meeting himself in lavatory mirrors he would say, nearly in defense, “We are an army, fourteen, fifteen million, and when we lift our voice . . .”
CHEEVER, John. Of Love: A Testimony. in Collected Stories & Other Writings. The Library of America. 2000. lml.
dezembro 15th, 2011 § Deixe um comentário
achei uma intercessão entre El Pasado e Cheever. Rímini e Vera vão desanuviar numa casa numa praia Valeria del Mar, que é em tudo parecida, nas terraças, nos arbustos, na rusticidade programada, às casas de praia dos personagens de Cheever que contratam empregadas do leste europeu pra cozinhar pra eles no verão, que nem a Carmela Soprano faz.
cabia um mapinha dessas anedotas locais que o Pauls semeia como fios soltos do caudal principal: fortín tiburcio, são paulo, salvador da bahia, viña del mar, aix-en-provence, londres… lml.
dezembro 1st, 2011 § Deixe um comentário
a estrutura de the day the pig fell into the well é intrincada e meta. usando como fio condutor a narrativa compartilhada pela família do dia em que o porco caiu no poço, Cheever vai, por meio de avanços e recuos na linha temporal, contando a história de uma família ao longo de 20 anos, tendo por anteparo a maneira como as histórias individuais e o pano de fundo histórico adulteram essa narrativa compartilhada. lml.
novembro 30th, 2011 § Deixe um comentário
por mais que em the worm in the apple fique escancarado, esse conto é porta de entrada. o embate entre pureza, impureza, aparência de pureza e vontade de pureza me parece central pro Cheever. vide goodbye, my brother, the world of apples, the enormous radio, the bus to st. james. o estranho é abrir espaço onde essa pureza seja possível, mais estranho do que o fato de que, no Cheever, às vezes ela é possível. lml.
anotação apressada, falo mais depois
novembro 29th, 2011 § Deixe um comentário
No jornal rascunho:
No entanto, como Caio Fernando Abreu reconhece, Cheever tem esse raro dom da verossimilhança: “Você lê e sofre. Você lê e ri. Você lê e engasga. Você lê e tem arrepios. Você lê, e a sua vida vai-se misturando no que está sendo lido”. (O Estado de S. Paulo, 5 de agosto de 1987).
caralho, vou me mudar prum planeta onde citar Caio Fernando Abreu falando de verossimilhança não seja um parâmetro estético, e ainda por cima pra promover a publicação de uma grande editora. Qualquer escritor que se preze é particularismo. Eu, pelo menos, nunca saí por aí atravessando minha cidade a nado pelas piscinas e isso não é desdouro pra imaginação do Cheever. lml.
novembro 27th, 2011 § Deixe um comentário
a biografia do Bolaño é um piquenique na poneilândia comparada à do Cheever. num modo de ganhar reconhecimento que pode parecer heterodoxo hoje, entre o 1º conto publicado em revista e o 2º livro e que o deixou meio famoso (the enormous radio, 1953) foram 33 anos. o pulitzer só veio 47 depois desse 1º conto, 5 anos antes da morte dele. ou seja, foram cinquenta e dois anos de tuberculose, prostatite, alcoolismo brabo, perda de todos os dentes, 6 livros de contos, 5 romances, 121 aparições no the new yorker, rusgas conjugais, relutância com a própria homossexualidade, exército, bombeiro, serviço público, eterna falta de grana, inveja do Salinger, cameo num filme adaptado de um livro seu estrelado por burt lancaster. e você não lê ele se gabando disso. lml.
novembro 27th, 2011 § Deixe um comentário

assim, isolada, não existe frase menos figurativa que She overheard demonstrations of indigestion, carnal love, abysmal vanity, faith, and despair. e ao mesmo tempo a gente sabe que o Cheever ele não tá falando de sentimentos num vácuo, muito pelo contrário, essa frase é a mais sugestiva possível do que pode acontecer quando você sintoniza o rádio de manhã pra ouvir os seus vizinhos acordarem. a gente sabe porque bem antes dessa descrição houve outra, sólida (the dialing of phones, and the lammentation of a vaccum cleaner) e haverá uma que mistura as duas abordagens (the hysterical conclusion of a luncheon party). há uma transição, do concreto pro abstrato. no enredo há uma transição em sentido contrário, os problemas se materializam. conclusão, em the enormous radio, o Cheever assenta o arcabouço referencial pra usar elementos abstratos, isso não ingenuamente, não pra alcançar uma “significação mais elevada”, mas como anteparo de ações palpáveis. lml.
novembro 22nd, 2011 § Deixe um comentário
existe essa instituição norte-americana que é a placidez turva dos subúrbios. Placidez inquebrantável. A superfície congelada de um lago em cujo interior desenrolam-se, como no leblon global, amenos dramas familiares, questiúnculas de consciência e mau-caratismos costumeiros. mas ¿e quando um desses movimentos esperáveis deixa de ser sintoma, ganha massa própria, estilhaça aquela superfície? ¿e quando o problema não é o marido alcoólatra e sim ele se embebedar nos compromissos sociais e pendurar pelado berrando em lustres?, feito o Gee-Gee, de Scarlet Moving Van, do Cheever.