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janeiro 22nd, 2012 § Deixe um comentário

há um ano, ouvi que o agosto/octubre de que eu tinha gostado não era mais do que recenseamento de ritos de passagem adolescentes. hoje, lendo perseguição e cerco a juvêncio gutierrez, um livro com um narrador parecido¹ (menino de 13 anos mei ilustrado), concluo que são livros ñ sobre virar homem, mas sobre busca de uma masculinidade que nunca foi alcançável. no perseguição e cerco fica mais claro: a herança é o heroísmo gaúcho, a maneira de lidar é tão instável quanto a do Borges. lml.

¹com certeza um livro mais ambicioso

janeiro 9th, 2012 § Deixe um comentário

(bacargo, high llamas, no som)

por mais engraçadinho, intrigantezinho que seja, soou meio balela isso de que as condições da entrevista eram borgeanas:

His walk is tentative, and he carries a cane, which he uses like a divining rod. He is short, with hair that looks slightly unreal in the way it rises from his head. His features are vague, softened by age, partially erased by the paleness of his skin. His voice, too, is unemphatic, almost a drone, seeming, possibly because of the unfocused expression of his eyes

uma vez li uma reportagem em que um cara dizia que tinha avistado e abordado na rua uma vez um Borges que respondeu apenas Borges é outro.

lml.

a língua do jota

dezembro 17th, 2011 § Deixe um comentário

Jorge Luis Borges em carta a Jorge Sureda, junho ou julho 1925:

Estou procurando uma maneira de ir além desse semirrenome em que estou metido, essa semifama de homem literário que é lido por outra gente literária, mas que não chega ao público mais amplo. Vou voltar à simplicidade crioula de expressão e ao vocabulário austero, despido de ornamentos.

Williamson, Edwin. Borges: uma vida. Trad. Pedro Maia Soares. Cia das letras. 2011.

outubro 31st, 2011 § Deixe um comentário

Um estilo de filme que eu curto é o de máfia, talvez pelo charme, talvez pela violência ordenada, muito embora os roteiros tendam a interromper essa linha de produção de cadáveres. Os Infiltrados é um caso exemplar de como um filme com um roteiro perfeito, perfeito no sentido do jogo borgeano, no sentido policial de roteiro que funciona, que engendra os próprios desdobramentos, pode não dizer nada. É triconhecida a constatação do Borges sobre a fantasia do relato policial, justamente pela artificialidade impermeável desse relato. Não sei se meu apreço pelo Borges vem do meu apreço pela circularidade lógica desses filmes que eu vi a vida inteira ou se comecei a gostar desses filmes ao adentrar as casas de espelhos, casas de loucos, funcionando como uma caixinha de música, que são os contos do argentino. lml.

factor borges III

outubro 13th, 2011 § Deixe um comentário

El Hombre en el Umbral me remeteu imediatamente a El Ojo Silva, um conto bom do Putas Asesinas¹. Está nos dois a labiríntica casa indiana como metonímia da imprecisão oriental, imprecisão essa reforçada por discursos que ocultam e distorcem do narrador. Está nos dois o papel do destino – ligado a uma ordem cósmica superior à religião: no primeiro à noção de juízo e compensação, no segundo à pura violência e seu reverso compassivo – como arbitrariedade inextricável pra quem está de cá na banda ocidental do mundo.

Influência de mão-dupla, conto do Bolaño é cheio de frases taxativas, de dicção borgiana da época do Aleph à la Allí, a aquella hora, nadie se fijó en él; El resto, más que una historia o un argumento, es un itinerarioLa huida había sido en espiral y el regreso relativamente breve. Acho que o meu Aleph já é de uma versão mais fixada, tem 18 contos, dentre eles o meu favorito La Casa de Astérion, veremos até onde dá pra ir. lml.

¹e sua remissão óbvia a Kevin Carter.

factor borges II

outubro 12th, 2011 § 1 Comentário

a primeira abordagem do Aleph vai pelo primeiro conto: El inmortal. A definição que o Borges dá de um de seus temas preferidos, o labirinto, neste conto ajuda, recorre-se à locução pródiga en simetrías¹, fica clara a intencionalidade do labirinto, confundir mediante a repetição do conhecido. Heterogénea² é usada pra descrever a Cidade dos Imortais, mais terrível que o labrinto. A passagem do sistematizado para o irreconhecível porque díspar em seus elementos é um mote da produção do argentino. Se cada espelho, ao replicar, replica ligeiramente diferente, fica a questão sobre de onde vem essa diferença e para onde foi o que se perdeu. Existe um resquício que a estética não reconhece, do qual não consegue se apropriar. O livro vai operando (n’El Zahir, no Deutches Requiem, etc…) na dualidade repetição/não apreensão, contenção/marginalidade.

Além disso, a primeira página, a apresentação do conto é quase uma declaração de princípios, prefigura os procedimentos do livro nas palavras Ilíada de Pope, manuscrito, anticuario, terroso, consumido, diversas lenguas, Macao, muerto en el mar. Continuarei a abordar esses contos. lml.

¹Lembrei do introito clássico, d’El Grafógrafo, de Salvador Elizondo: Escribo. Escribo que escribo. Mentalmente me veo escribir que escribo y también puedo verme ver que escribo. Me recuerdo escribiendo ya y también viéndome que escribía. Y me veo recordando que me veo escribir y me recuerdo viéndome recordar que escribía y escribo viéndome escribir que recuerdo haberme visto escribir que me veía escribir que recordaba haberme visto escribir que escribía y que escribía que escribo que escribía. También puedo imaginarme escribiendo que ya había escrito que me imaginaría escribiendo que había escrito que me imaginaba escribiendo que me veo escribir que escribo.

²O narrador, sobre os riscos de um homem da tribo na areia: Además, ninguna de las forma era igual a la otra, lo que excluía la posibilidad de que fueran simbólicas.  (Borges, Jorge Luis.  El Aleph. Emecé Editores. 2005)

factor borges

outubro 12th, 2011 § Deixe um comentário

voejava em torno a esse argentino via Pauls e recusas do Aira e do Saer, peguei pra reler. ontem devorei o Aleph, hoje singro Otras Inquisiciones. tô ordenhando coragem deste dia chuvoso e desse disco do Constantina pra falar sobre isso sem ser um boçal. se é que será possível. lml.

outubro 4th, 2011 § Deixe um comentário

Saer usa pra falar de escritores em começo de carreira, notadamente Borges¹, as expressões retórica e declarativo, ou seja, pra ele, amadurecimento passa por recusa à ênfase. uma frase como imagine o lugar da sua infância não funciona, geral demais. uma frase como o destino precário e lúgubre das mãos trementes ansiando por desfecho tórrido mas inválido de noite não funciona. fica a questão sobre o que funciona. lml.

¹A posição do late-Borges é parecida e bem conhecida.

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