fevereiro 6th, 2012 § Deixe um comentário
(pelo amor de deus, do clube da esquina, no som)
fico pensando no rigor exemplar de Sueño de los heroes, em como, mesmo com o livro sendo soturno em quase todas as partes, a urdidura do texto é limpa, reconhecível nos seus elementos. ou seja, a representação ser soturna não exime o fraseado de não pegar atalhos. lml.
novembro 24th, 2011 § Deixe um comentário
Ontem, quando o mundo era um povoado, não para poucos parecia ao alcance da mão alguma forma de mortalidade, talvez até humilde como a de Shakespeare, que hoje já durou a idade de cinco velhos; mas a chamada explosão demográfica nos torna todos sobreviventes da inundação, agarrados a um escorregadio telhado em declive, do qual as novas remessas de refugiados nos empurrarão para o abismo. Como Villasandrino, percebo sinais alarmantes. Primeiro: o mundo vai ficando pequeno para nos conter. Nos contratos de seus livros, amigos franceses assinalaram uma cláusula – hoje em dia, me dizem, imprescindível – que garante ao editor o direito de proceder à destruição, nem bem convenha, dos exemplares empilhados no depósito. Segundo: quem desapareça não volta assim sem mais nem menos. Encomendei em vão a algumas livrarias de Londres uma polêmica de Arnold e Newman acerca da tradução de Homero que até bem pouco tempo tinha lugar cativo, não só na história da literatura, mas também nas coleções mais comuns de obras famosas¹. Depois me disseram que uma certa universidade norte-americana preparava uma edição monumental de Arnold; de toda maneira, nos perguntamos até quando os Estados Unidos manterão seu papel de museu, firmamento e posteridade de passados e culturas.
¹Também não encontrei reedições de boa parte dos livros de George Moore, nem de quase nenhum de Andrew Lang; quanto a Eden Phillpotts, talvez só sobreviva em traduções para o espanhol publicadas em Buenos Aires.
Bioy Casares, Adolfo. La Trama Celeste. Sur:EditorialSudamericana. Buenos Aires. 1970. lml.
novembro 2nd, 2011 § Deixe um comentário
El Sueño de los heroes parte da amnésia (“cansancio y alcohol”) como substrato da paramnésia, Gauna pensa demais naquilo que esqueceu. O problema é que, no fim das contas, essa amnésia não era amnésia e sim antecipação, aparece inclusive a palavra destino algumas vezes e a palavra labirinto uma vez. No entanto, o importante não é o desfecho que alguns chamam de fantástico quando na verdade é mera consequência. O importante são os desvios, as diferenças dentro da repetição¹, muito bem plantadas ao longo de um fluxo temporal e psicológico irretocável. Comparação inevitável: lançado em 1954, quando já havia no mundo La Invención de Morel (1946), pra não falar de Ficciones (1944) e El Aleph (1949), El Sueño de los Heroes dá a impressão de que um livro tão fora da órbita borgeana só podia ser escrito por um amigo íntimo de Borges, chega a dar a impressão de ser um livro que, num típico revestrés espaço-temporal, influenciaria o Borges.
Engraçada a frase “Lo que no me convence es la escalera… muy angosta… no sé cómo van a sacar el catafalco”. me lembrando aquela história do Piglia sobre o caixão do Arlt não passar pela porta do quarto. lml.
¹me parece central no livro uma vontade de repetição
Próximo post
novembro 1st, 2011 § Deixe um comentário
El Sueño de Los Heroes (1954), Unidad de Lugar (1967) e Blanco Nocturno (2010) pintam a mesma Argentina dos sillones de Viena à sombra de paraísos, dos times de futebol do bairro e das corridas de cavalo. Uma Argentina telúrica, de cujo réquiem Piel y Hueso (2009) se encarrega. lml.