maio 14th, 2012 § Deixe um comentário

maio 14th, 2012 § Deixe um comentário

(when the levee breaks, do led zeppelin, no som)

hoje dei sorte e a minha cadeira foi a da janelinha. o cara da cadeira do meio não mudou para a cadeira da direita quando encerrou o embarque e ela ficou vazia. ficou lá fedendo muito a cigarro, achando que eu não percebia cada vez que ele tentava ler meu livro de esguelha. ele mexeu no celular o voo inteiro, sem nenhuma aeromoça interromper. tentei dormir, o cheiro do cigarro acordava. lml.

maio 11th, 2012 § Deixe um comentário

quase não tem espaço entre os quartetos de lâmpadas fluorescentes, os feixes de luz se sobrepõem e escrutinam todos os cantos, esquinas atrás da porta aberta, tubulações,  tomadas manchadas de tinta, espaço que as rodinhas do ventilador/umidificador deixam entre o ventilador/umidificador, vincos nas roupas, cenhos que franzem quando esbarram numa questão, dedos segurando canetas e também esfregando têmporas, mexendo em espinhas, coçando queixos, varrendo cabelos. tudo meio brilhoso, sem sombra, no mínimo. são sete carteiras, dispostas um u, em sentido anti-horário, duas junto à parede da mesa do professor, duas junto à parede da porta, perpendicular a essa primeira, e três carteiras mais o ventilador/umidificador, murmurando no mínimo, junto à parede perpendicular à da porta. na parede livre, o quadro branco só tem o nome da fiscal, a data em inglês e a frase 50 minutes escrito. por mais que a porta esteja aberta e as paredes de gesso deem para outras salas, não vem nenhum barulho de fora, mas sobe sim de algum lugar um cheiro de fritura que ou só a fiscal sente ou os candidatos sentem mas não demonstram. sem poder olhar para os lados, um deles, um com uma camisa estampada com uma foto dele mesmo mais novo abraçando um bebê, move os olhos entre a fiscal e o quadro. o quadro, além do que já vimos que está escrito, não tem qualquer outra mancha, nem de coisa mal apagada. e isso que não tem apagador, a cada vez que o coordenador de prova passa pela porta e comunica em gestos e contorções de boca a fiscal de que faltam menos meia hora para a prova acabar, ela precisa apagar com o dedo o número que tinha escrito antes, 50, por exemplo e escrever o novo. mesmo assim, tem nada pra olhar no quadro. nem na fiscal. além da roupa do corpo, não pode entrar com nada na sala, nem carteira, nem chave, nem celular, entram e a prova já está em cima da carteira, com uma caneta preta de tubo transparente do lado. na mesa, o fiscal encontra uma folha com as instruções que já passaram antes pra ele e o canetão pra escrever no quadro. alguém já verificou e confirmou as presenças antes de entrarem nas salas. lml.

as razões pra se jogar um jogo com detonado do lado

maio 9th, 2012 § Deixe um comentário

(teclados em fúria, furadeira, ecos)

digamos que trinta por cento da dificuldade de falar de IJ vem da maçaroca de considerações que outros fizeram antes da minha própria leitura, maçaroca essa que influencia essa minha leitura, dez por cento vem de dificuldades recentes de fala e dificuldades de validar esse blogue como espaço dessa fala, sessenta por cento é o livro em si, a dificuldade de rastrear certas costuras e certos planos de fundo que só são explicitados quarenta páginas depois da cena que ajudaram a transmitir. o panorama é de fato mais do que vasto, dfw usa núcleos de personagens diferentes para passear por temas recorrentes (confinamento, disciplina, drogas, solidão, diversão, tédio) e esmiuça esses núcleos em caracterizações que, ao mesmo tempo em que são robustas, aparecem espalhadas no texto. da mesma maneira, narrações retrospectivas se imiscuem a narrações presentes graças a uma mixórdia de tempos que se entrecuzam: um dos planos de fundo é o da subsidiarização dos anos, empresas conseguem comprar os direitos do ano de cada ano. a maioria da ação se desenrola no Y.D.A.U.. B.S. (Before Subsidiarization) é um marco temporal. mas falar da megalomania do livro é chover no molhado, tanto já foi feito por outros quanto não interessa.

não interessa quantas linhas narrativas é possível sustentar ao mesmo tempo sem escorregar, quantos personagens distintivos o suficiente para serem mais do que figurantes. a minha opinião é a de que o que importa é o quanto, apesar disso tudo, onde o livro vence é na caracterização e na observação minuciosas, até porque, em última análise, é um livro sobre uma família, que é tão mais recompensador que todos os outros porque consegue ressignificar, ora reafirmando estereótipos, ora indo contracorrente, de maneira satisfatória num plano físico (gestual, de ações, de descrição de lugares) e num plano psicólogico que não abobalha nem leitor nem personagem. exemplo disso é a parte que terminei de ler agora (pág. 287) em que a descrição de uma casa temporária de reabilitação é feito numa terceira pessoa parcial, por meio do vocabulário e do raciocínio do encarregado da casa (Don Gately), a questão é que não são simples produtos mentais dele, ele aparece em cane e é também deglutido por essa narração. ou seja, o brilho está não no exagero, mas na observação concisa e parcial daquilo que é minimamente distintivo, a massa crítica de combustível pra fazer o livro andar. se eu conseguir, depois falo mais. lml.

maio 9th, 2012 § Deixe um comentário

‘The microwave, O. The rotisserie microwave over next to the fridge, on the freezer side, on the counter, under the cabinet with the plates and bowls to the left of the fridge as you face the fridge’

‘A microwave oven.’

‘That is a Rog and Wilc, O’

diálogo fabuloso em infinite jest, grifo meu. lml.

maio 9th, 2012 § Deixe um comentário

And was I nervous, young sir J.O.I.? With the one and only Himself there in all his wooden glory there, watching, half in and out of the light, expressionless? I was not. I was in my body. My body and I were one. My wood Wilson from my stack of wood Wilsons in their trapezoid presses was a sentient expression of my arm, and I felt it singing, and my hand, and they were alive, my well-armed hand was the secretary of my mind, lithe and responsive and senza errori, because I knew myself as a body and was fully inside my little child’s body out there, Jim, I was in my big right arm and my scarless legs, safely ensconced, running here and there, my head pounding like a heart, sweat purled on every limb, running like a veldt-creature, leaping, frolicking, striking with maximum economy and minimum effort, my eyes on the ball and the corners both, I was two, three, a couple shots ahead of both me and the hapless canine client’s kid, handling the dandy his pampered ass.

monólogo fabuloso em infinite jest. lml.

post originalíssimo

maio 9th, 2012 § Deixe um comentário

(cinco minutos pro ônibus, semana no meio, fim de semana em sp)

“gargalhadas teatrais não fosse o cansaço”. essa frase não é minha, é de um livro que eu não estou lendo, não estou lendo nada nem fazendo nada, só um infinite jest nos intervalos do trabalho, de vez em quando twitter, mas, essencialmente, fazendo nada, imóvel, paradão no romance e até no próprio infinite jest, que não se deixa anotar, essas coisas. lml.

maio 6th, 2012 § Deixe um comentário

maio 5th, 2012 § Deixe um comentário

o que me encantou em um sete um não foi o brasileirismo do protagonista, e sim a dicção autenticamente tensa entre esse brasileirismo e uma vontade de dizer alguma coisa fora do estereótipo, tensão que não se resolve, que o protagonista corrige ou esmiúça. entre isso, um ponto de partida estrambótico e uma recusa a esquematismos de oficina literária, o livro vence. lml.

maio 5th, 2012 § Deixe um comentário

o didatismo dos parágrafos curtos de senhor do lado esquerdo me incomodou, não comprei. em troca comprei um livro que, apesar de ser de um gaúcho contemporâneo frequentador de oficina de criação literária e orelhado por marcelino freire, é bom, de verdade. lml.

maio 4th, 2012 § Deixe um comentário

traduzi mais uma entrevista do bolaño, aqui. lml.

maio 4th, 2012 § Deixe um comentário

Nessas palavras (de Eucanaã Ferraz), não há fusão entre poeta e passado. Nem se considera que o “talento individual” possa ser testado a partir de um conflito objetivo ou de uma luta interior. O poeta entra na dita contemporaneidade como um consumidor, que pode hoje usar todas as formas disponíveis sem se comprometer, sem ser afetado por nenhuma delas – e nem elas afetam o seu dizer. As formas não são autoconstituintes do poema, porque a convenção tem a precedência e delimita o campo da intuição criadora, onde qualquer emoção precisará de um ponto de apoio instituído ou de uma intermediação cultural (via direta para o intertextualismo, que é uma espécie de primo rico da retradicionalização). “Forma”, nessa acepção, é coisa pronta, fôrma, gêneros modernos ou não, medidas, o que preexiste dentro dessa liberadora heterogeneidade do prêt-à-porter, esvaziado de matéria.

aqui, grifo meu. lml.

maio 1st, 2012 § Deixe um comentário

(airline to heaven, do wilco, no som)

um conto que eu consigo dizer que mudou minha vida. uns três anos atrás. do don delillo. lml.

abril 30th, 2012 § Deixe um comentário

independentemente do total de páginas, quando lá pra duzentos o dfw não avançou um milímetro na trama, ainda está na caracterização exaustiva, você começa a desconfiar de que é isso mesmo, não vai avançar, vai revolver e caracterizar e armar diálogos e, pelo menos, esperamos, mais um monólogo tão absurdamente genial quanto o do pai de Himself lá pela 160. lml.

abril 30th, 2012 § Deixe um comentário

(saída e bandeiras nº2, do clube da esquina, no som, parentes gritando uns com os outros)

exercício de relaxamento: tentar dormir depois de ou enquanto a sua namorada briga com você e te faz se atrasar pra fila onde a mulherzinha da webjet está tendo um ataque histérico e com isso engatilhando o ataque histérico de um menino cuja síndrome de down vai fazê-lo urrar o voo inteiro ao mesmo tempo em que a velhinha no assento grudado ao teu te atulha de panfletos evangélicos e não para de comentar a falta de educação da mulherzinha e do pessoal da webjet em geral, inclusive o piloto que, ao invés de anunciar as condições do voo, usa cinco minutos de alto-falante pra dizer como no dia é aniversário de uma das aeromoças e pedir uma salva de palmas pra ela que eles vão trabalhar até a uma da manhã e depois é folga pra todo mundo, inclusive aeromoça que não faz nada pro menino calar a boca nem nada pra fazer uma menina parar de filmar o pouso com o celular. tentar dormir porque o sono não deixa ler. lml.

abril 28th, 2012 § Deixe um comentário

pra não deixar uma ida à selva de pedra em branco:

lml.

abril 26th, 2012 § Deixe um comentário

(on and on and on, do jack white, no som)

uhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuul. dancinha da vitória, o cachorro provisório (4 ficções e fragmentos) ficou pronto!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! obrigado ao Mauro Siqueira pela paciência. depois do feriado falo sobre o livrinho. enquanto isso, leiam por aqui. lml.

abril 25th, 2012 § Deixe um comentário

Perhaps one reason writing is stuck might be the way creative writing is taught. In regard to the many sophisticated ideas concerning media, identity, and sampling developed over the past century, books about how to be a creative writer have relied on clichéd notions of what it means to be “creative.” These books are peppered with advice like: “A creative writer is an explorer, a groundbreaker. Creative writing allows you to chart your own course and boldly go where no one has gone before.” Or, ignoring giants like de Certeau, Cage, and Warhol, they suggest that “creative writing is liberation from the constraints of everyday life.”

It’s not plagiarism. In the Digital Age, it’s Repurposing, Kenneth Goldsmith. aqui. lml.

abril 23rd, 2012 § 1 Comentário

Rapa Dura

De Fortaleza na chuva a uma corrida de São Silvestre, a variedade de situações (mas não de temas) no livro forma uma colcha de retalhos em que a linha de costura é um narrador pedestre, incomodado com sirenes, alto-falantes, tiros de partida e conversas intrusas. O olhar pode ser menos que atento ou atento demais, o passo mais de improviso do que preciso, a desconfiança pode ser mais do que epidérmica e aflorar à pele, tanto faz, o que importa é que, com alguma insistência, essas paranoias decidem por conta própria qual é o contorno do turbilhão urbano que quer dizer alguma coisa, coisa essa que, no fim das contas, pode ou não ser mais do que um detalhe na imagem total que a colcha revela se olhamos à distância certa. lml.

edição e capa: Mauro Siqueira. oncoming. lml

abril 23rd, 2012 § Deixe um comentário

Hugo Crema (Brasília,1990) é autor do romance Finisterra (por alguma editora, este ano) e, além disso, de materiais veiculados em lugares esparsos na internet e fora: traduções de Roberto Bolaño para o projeto Estrela Selvagem e o e-book decontos O Cachorro Provisório, por exemplo. Bate ponto no blogue calopsitaescapista.

oncoming. lml.