maio 31st, 2012 § Deixe um comentário

É possível que El secreto del mal seja o mais irregular dos livros póstumos do Bolaño. É impossível saber que destinação ele ia dar pros excertos encontrados em seu computador. Parece que este conto que eu traduzi, ele escreveu no último ano de vida, quando já era famoso por suas controvérsias, mesmo assim, fica claro que o texto não estava pronto para publicação. Justamente por ser inacabado e ad hoc, supostamente secreto, a tradução do conto não foi fácil, algumas frases não batem, perdem o referente, argumentos morrem na praia, por aí vai; tratei tudo com literalidade, em especial os coloquialismos, que poderiam se beneficiar de algumas preparações básicas de texto. Em sua obra de prosa, as diatribes contra contemporâneos aparecem acolchoadas por outras camadas de enredo, é raro encontrar uma peça assim, declarativa. Nem em entrevistas e conferências Bolaño adota tão abertamente este teor de manifesto que deixa transparecer convicções estéticas. Leio isto mais como um desabafo do que como um exercício deliberado de crítica. lml.

DERIVATIVOS DA PESADA

Roberto Bolaño

                É curioso que tenham sido uns escritores burgueses os que elevaram Martín Fierro, de Hernández, ao centro do cânone da literatura argentina. Este ponto, é claro, é discutível, mas o certo é que o gaúcho Fierro, paradigma do espoliado, do valente (mas também do capanga), se alça no centro de um cânone, o cânone da literatura argentina, cada vez mais enlouquecido. Como poema, Martín Fierro não é uma maravilha. Como romance, em compensação, está cheio de significados por explorar, isso é, conserva sua atmosfera de vento ou, melhor, de ventarola, seus cheiros de intempérie, sua boa disposição para golpes do acaso. Mas é um romance da liberdade e da sujeira, não um romance sobre educação e bons modos. É um romance sobre a coragem, não um romance sobre a inteligência, muito menos sobre a moral.

                Se Martín Fierro domina a literatura argentina e seu lugar é no centro do cânone, a obra de Borges, provavelmente o maior escritor que já tenha nascido na América Latina, é apenas um parênteses.

                É curioso que Borges escrevesse tanto e tão bem sobre Martín Fierro. Não só o jovem Borges, que em algumas ocasiões costuma ser, no âmbito puramente verbal, nacionalista, mas também o Borges adulto, que em algumas ocasiões fica extasiado (estranhamente extasiado, como se contemplasse a gesticulação da Esfinge) diante das quatro cenas mais memoráveis da obra de Hernández, e que em algumas ocasiões inclusive escreve contos, de má vontade e perfeitos, argumentalmente epigonais à obra de Hernández. Quando Borges glosa Hernández, não o faz com o carinho e a admiração com que se refere a Guiraldes, nem com a surpresa e a resignação que usa para invocar aquele monstro familiar que foi Evaristo Carriego. Com Hernández, ou com o Martín Fierro, Borges dá a impressão de estar atuando perfeitamente, em uma peça de teatro que ele acha, por outro lado, mais do que detestável, errada. Mas, detestável ou errada, ele também a acha irremediável. Sua morte silenciosa em Genebra é, nesse sentido, mais do que eloquente. Que isso; não é só eloquente, na verdade, sua morte em Genebra fala pelos cotovelos.

                Com Borges vivo, a literatura argentina se transforma no que a maioria dos leitores conhece como literatura argentina. Isso é: tem Macedónio Fernández, que às vezes parece um Valery portenho, tem Guiraldes, que está doente e é rico, tem Ezequiel Martínez Estrada, tem Marechal, que logo vira peronista, tem Mujica Láinez, tem Bioy Casares, que escreve a primeiro romance fantástico e o melhor da América Latina, por mais que todos os escritos da América Latina se apressem a negar isso, tem Bianco, tem o pedante Mallea, tem Silvina Ocampo, tem Sábato, tem Cortázar, que é o melhor, tem Roberto Arlt, que foi o mais negado de todos. Quando Borges morre, tudo acaba de uma vez. É como se o Mérlin morresse, embora os círculos literários de Buenos Aires não fossem exatamente Camelot. Acaba principalmente o reino do equilíbrio. A inteligência apolínea dá lugar ao desespero dionisíaco. O sonho, um sonho muitas vezes hipócrita, falso, oportunista, covarde, se transforma em pesadelo, um pesadelo muitas vezes honesto, leal, valente, que atua sem rede de proteção, mas pesadelo, no fim das contas, e, o que é pior, literário, literariamente suicida, literariamente beco sem saída.

                Embora com a passagem dos anos seja legítimo se perguntar até que ponto o pesadelo ou a pele do pesadelo é tão radical como diziam seus cultores. Muitos deles vivem melhor que eu. Nesse sentido, posso me permitir afirmar que sou um rato apolíneo e que eles a cada dia se parecem mais com gatos angorá ou gatos siameses devidamente desinfetados por uma coleira de marca Acme ou de marca Dionisos, o que a esta altura da história vem a ser a mesma coisa.

                A literatura argentina atual, lamentavelmente, tem três pontos de referência. Dois deles são públicos. O terceiro é secreto. Os três, de alguma maneira, são reações antiborgeanas. Os três, no fundo, representam um retrocesso, são conservadores e não revolucionários, embora os três, ou pelo menos dois deles, se apresentem como alternativa de um pensamento de esquerda.

                No primeiro reina Osvaldo Soriano, que foi um bom romancista menor. Com Soriano tem que ter a cabeça cheia de matéria fecal para pensar que a partir dali se possa fundar um ramo literário. Não quero dizer que Soriano seja ruim. Já disse, é divertido, é, basicamente, um autor de romances policiais ou vagamente policiais, cuja principal virtude, amplamente elogiada pela crítica espanhola, sempre tão perspicaz, foi seu comedimento na hora de adjetivar, comedimento que por outro lado perdeu lá pelo quarto ou quinto livro. Não é muito para iniciar uma escola. Suspeito que a raiz da influência de Soriano (além de sua simpatia e generosidade, que dizem que foi grande) está na venda de seus livros, no seu fácil acesso nas massas de leitores, por mais que falar de massas de leitores quando na verdade estamos falando de vinte mil pessoas é, sem dúvida, um exagero. Com Soriano os escritores argentinos percebem que eles também podem ganhar dinheiro. Não é preciso escrever livros originais, como Cortázar ou Bioy, nem romances totais, como Cortázar ou Marechal, nem contos perfeitos, como Cortázar ou Bioy, e acima de tudo não é preciso perder tempo e saúde em uma biblioteca mequetrefe para que ainda por cima nunca te deem o prêmio Nobel. Basta escrever como Soriano. Um pouco de humor, muita solidariedade, amizade portenha, algo de tango, boxeadores musculosos e Marlowe velho e firme. Mas firme onde?, me pergunto de joelhos e soluçando. Firme no céu? firme na privada do seu agente literário? Mas você é besta, picaretinha, você tem agente literário? E um agente literário argentino, para maior escárnio?

                Se o escritor argentino responde afirmativamente a essa última pergunta, podemos ter certeza de que ele não vai escrever como Soriano e sim como Thomas Mann, como o Thomas Mann de Fausto. Ou, já com enjoo pela imensidade do pampa, direto como Goethe.

                A segunda linha é mais complexa. A segunda linha começa em Roberto Arlt mas é muito provável que Arlt seja totalmente inocente deste mal entendido. Digamos, modestamente, que Arlt é Jesus Cristo. Logo, a Argentina é Israel e Buenos Aires, Jerusalém. Arlt nasce e vive uma vida mais para a curta. Se não me engano, quarenta e dois anos. É um contemporâneo de Borges. Este nasce em 1899 e Arlt nasce em 1900. Mas, ao contrário de Borges, a família de Arlt é uma família pobre e quando vira adolescente não vai a Genebra e sim começa a trabalhar. O ofício mais frequentado por Arlt é o jornalismo e à luz do jornalismo é possível ver muitas de suas virtudes, mas também muitos de seus defeitos. Arlt é rápido, corre riscos, maleável, um sobrevivente nato, mas também um autodidata, não um autodidata no sentido que Borges foi um autodidata: o aprendizado de Arlt transcorre na desordem e no caos, na leitura de péssimas traduções, nos esgotos e não nas bibliotecas. Arlt é russo, um personagem de Dostoievski, enquanto Borges é um inglês, um personagem de Chesterton ou de Shaw ou de Stevenson. Inclusive, às vezes, a contragosto dele mesmo, Borges parece um personagem de Kipling. Na guerra entre os grupos literários de Boedo e Florida, Arlt está com Boedo, mas tenho a impressão de que seu ardor guerreiro nunca foi excessivo. Sua obra está composta de dois livros de contos e de três romances, embora o certo seja que escreveu quatro romances e que os contos não recolhidos em livro, contos que apareceram em jornais e revistas e que Arlt era capaz de escrever enquanto falava de mulheres com seus colegas de redação, dão pelo menos para mais dois livros. Também é autor de umas Águas-fortes portenhas, dentro da melhor tradição impressionista francesa e de umas Águas-fortes espanholas, estampas da vida cotidiana na Espanha dos anos trinta, onde abundam ciganos, pobres e as pessoas generosas. Tentou ficar rico com negócios que não tinham nada a ver com a literatura argentina da época, embora sim com a ficção científica, e fracassou sempre, e sempre de maneira inapelável. Depois morreu, aos quarenta e dois anos, e, como ele teria dito, acabou de vez.

                Mas nem tudo acabou porque, igual Jesus Cristo, Arlt teve seu São Paulo. O São Paulo de Arlt, o fundador de sua igreja, é Ricardo Piglia. Sempre me pergunto, o que teria acontecido se Piglia, ao invés de se apaixonar por Arlt, tivesse se apaixonado por Gombrowicz? Por que Piglia não se apaixonou por Gombrowicz e sim por Arlt? Por que Piglia não se dedicou a divulgar a boa nova gombrowicziana ou não se especializou em Juan Emar, esse escritor chileno semelhante ao monumento ao soldado desconhecido? Mistério. Em qualquer caso, é Piglia quem eleva Arlt dentro de seu próprio caixão, sobrevoando Buenos Aires, em uma imagem muito pigliana ou arltiana, mas que, tecnicamente, só acontece na imaginação de Piglia e não na realidade. Não foi um guindaste o que desceu o caixão de Arlt, a escada era larga o suficiente para manobrar, o cadáver de Arlt não era o de um campeão dos pesos pesados.

                Com isto, não quero dizer que Arlt seja um mau escritor, pelo contrário, é excelente, nem quero dizer que Piglia seja, pelo contrário, Piglia me parece um dos melhores narradores atuais da América Latina. O problema é que eu acho difícil engolir o desvario – um desvario mafioso, da pesada – que Piglia tece ao redor de Arlt, provavelmente o único inocente nesse assunto. Não posso ficar, de jeito nenhum, a favor dos maus tradutores do russo, como disse Nabokov a Edmund Wilson enquanto preparava seu terceiro martini, e não posso aceitar o plágio como uma das belas artes. A literatura de Arlt, considerada como armário ou como porão, é boa. Considerada como a sala de estar da casa, é uma piada macabra. Considerado como cozinha, promete o envenenamento. Considerada como lavabo, vai acabar nos passando sarna. Considerada como biblioteca, é uma garantia da destruição da literatura.

                Ou o que é a mesma coisa: a literatura da pesada tem que existir, mas se só ela existir, a literatura acaba.

                Como a literatura solipsista, tão em voga na Europa, hoje que o jovem Henry James voltou a cavalgar a vontade. Uma literatura do eu, da subjetividade extrema, claro que tem que existir e deve existir. Mas se só existissem literatos solipsistas toda a literatura acabaria virando um serviço militar obrigatório do minimim ou um rio de autobiografias, de livros de memória, de diários pessoais, que não demoraria em virar esgoto, e a literatura também então deixaria de existir. Porque a quem demônios interessaria as idas e vindas sentimentais de um professor?  Quem pode dizer, sem mentir como um gambá, que o dia a dia de um professor madrileno, por mais relevante que seja, é mais interessante do que os pesadelos e os sonhos e as ambições do insigne e ridículo Carlos Argentino Daneri? Ninguém com três dedos de testa. Cuidado: não tenho nada contra autobiografias, desde que quem escreva tenha um pênis de ereção de trinta centímetros. Desde que a escritora tenha sido uma puta e seja moderadamente rica na velhice. Desde que o perpetrador de tal artefato tenha tido uma vida singular. Nem preciso dizer que, entre os solipsistas e os garotos da pesada, fico com os últimos. Mas só como um mal menor.

                A terceira linha no jogo da literatura argentina atual ou pós-Borges é a que Osvaldo Lamborghini inicia. Essa é a corrente secreta. Tão secreta quanto foi a vida de  Lamborghini, que morreu em Barcelona em 1985, se lembro bem, e deixou como testamenteiro seu discípulo mais querido, César Aira, o que vem a ser a mesma coisa do que se um rato deixasse como testamenteiro a um gato com fome.

                Se Arlt, que como escritor é o melhor dos três, é o porão da casa que é a literatura argentina, e Soriano é um jarro no quarto de hóspedes, Lamborghini é uma caixa colocada em cima de um guarda-roupa no porão. Uma caixinha de papelão, pequena, com a superfície cheia de poeira. Agora, se alguém abre a caixinha, vai encontrar no interior dela o inferno. Me perdoem por ser tão melodramático. A obra de Lamborghini sempre me provoca isso. Não há como descrevê-la sem cair em exageros. A palavra crueldade cai nela como uma luva. A palavra dureza também, mas acima de tudo a palavra crueldade. O leitor desavisado pode descortinar um jogo sadomasoquista próprio dessas oficinas literárias que as almas caridosas e de vocação professoral organizam em manicômios. É possível mas não é suficiente. Lamborghini sempre vai dois passos à frente, ou atrás, de seus perseguidores.

                É estranho pensar em Lamborghini agora. Morreu aos quarenta e cinco anos, isso é, eu hoje sou quatro anos mais velho que eu. Às vezes abro algum dos seus dois livros, editados por Aira, o que não faz diferença, podem ter sido editados pelo tipógrafo ou pelo porteiro do prédio onde fica a editora, a editora Serbal, de Barcelona, e a duras penas consigo lê-lo, não porque eu ache ruim mas porque me dá medo, principalmente o romance Tadeys, um romance insuportável, que eu só leio (duas ou três páginas, nada mais) quando me sinto particularmente corajoso. São poucos os livros que eu digo que cheirem a sangue, a vísceras a fluidos corporais, a atos sem perdão.

                Hoje que está tão na moda falar dos niilistas, embora quando se fala deles as pessoas se refiram aos terroristas muçulmanos, que justamente de niilistas não têm nada, não seria mau visitar a obra de um verdadeiro niilista. O problema de Lamborghini é que errou de profissão. Teria se dado melhor como matador de aluguel, lanterneiro ou como coveiro, ofícios menos complicados do que tentar destruir a literatura. A literatura é uma máquina couraçada. Não se preocupa com os escritores. Às vezes nem percebe que eles estão vivos. Seu inimigo é outro, muito maior e muito mais poderoso, e que no final a acabará derrotando, mas essa é outra história.

                Os amigos de Lamborghini estão condenados a plagiá-lo ad nauseam, o que poderia deixar o próprio Lamborghini feliz, se pudesse vê-los vomitar. Também estão condenados a escrever mal, péssimo, exceto Aira, que mantém uma prosa uniforme, cinza, que em ocasiões, quando é fiel a Lamborghini, cristaliza em obras memoráveis, como o conto Cecil Taylor ou a nouvelle Cómo me hice monja, mas que em sua deriva neovanguardista e rousseliana (e absolutamente acrítica) na maioria das vezes só é chata. Prosa que se devora a si mesma sem solução de continuidade. Falta de crítica que se traduz na aceitação, com nuances, decerto, dessa figura tropical que é a do escritor latino-americano profissional, que sempre tem um elogio para quem lhe peça um.

                Destas três linhas, as três linhas mais vivas da literatura argentina, os três pontos de partida da pesada, temo que terminará vencedora aquela que representa com maior fidelidade a patota sentimentalista, nas palavra de Borges. A patota sentimentalista, que não é a direita (em grande parte porque a direita se dedica à publicidade e ao proveito da cocaína e a planificar a fome e os corralitos, e em matéria literária é analfabeta funcional ou se conforma em recitar versos do Martín Fierro), mas a esquerda e que o que pede a seus intelectuais é soma, o mesmo, justamente, que recebe de seus amos. Soma, soma, soma, Soriano, me desculpe, teu é o reino.

                Arlt e Piglia são ponto e vírgula. Digamos que é uma relação sentimental e que o melhor a fazer é deixá-los em paz. Ambos, Arlt sem dúvida, são parte importante da literatura argentina e latino-americana e o destino deles é cavalgar sozinhos pela pampa habitada por fantasmas. Apesar de que ali não há escola possível.

                Corolário: é preciso reler Borges de novo.

Título original: DERIVAS DE LA PESADA

in

EL SECRETO DEL MAL, ANAGRAMA, 2007

tradução: Hugo Crema

maio 28th, 2012 § Deixe um comentário

o que mais incomoda em maconheiros é como eles são monotemáticos em cima desse assunto; não só só falam disso como ainda por cima falam disso exibindo um tipo de jargão que só eles acham que é interno e exclusivo; e só eles (e não o inocente interlocutor) acham que estão sendo malandros fazendo isso. mais ou menos que nem gente que gosta de falar de livro. lml.

maio 28th, 2012 § Deixe um comentário

(the man’s a world-class retentive, the late-Howard Hughes type, the really severe kind, the kind with the paralyzing fear of free-floating contamination, the either-wear-a-surgical-microfiltration-mask-or-make-the-people-around-you-wear-surgical-caps-and-masks-and-touch-doorknobs-only-with-a-boiled-hankie-and-take-fourteen-showers-a-day-only-they’re-not-showers-they’re-with-this-Dermalatix-brand-shower-sized-Hypospectral-Flash-Booth-that-actually-like-burns-your-outermost-layer-of-skin-off-in-a-dazzling-flash-and-leaves-you-baby’s-butt-new-and-sterile-once-you-wipe-off-the-coat-of-fine-epidermal-ash-with-a-boiled-hankie kind)

infinite jest. lml.

maio 28th, 2012 § Deixe um comentário

sem que me avisassem, saí na revista Macondo. uhul. lml.

maio 26th, 2012 § Deixe um comentário

(black moon, do wilco, no som, programando leituras pr’até o fim do ano)

birds of america
wittgenstein’s mistress
sixty stories
mezzanine, the
pastoralia
scorch atlas
apex hides the hurt
person
notable women in america
lightining rods
lml.

maio 25th, 2012 § Deixe um comentário

resumindo, essa editora aí, secundada por um séquito de jornalistas, inventaristas de blogue e semicríticos de bibliografia manca, manca ela mesma quando tenta chegar nos autores de fora do país e quando tenta alçar autores de dentro dele. as outras editoras estão longe de serem tão grandes e não sofrem dessas ilusões de grandeza. lml.

maio 25th, 2012 § 1 Comentário

a segunda coisa que incomoda é de ordem nacional. a seleção de autores nacionais é uma aparelhagem das brabas e já não é lá essas coisas, e aí eles vão lá e escolhem a nata pra escrever um blogue em que capenguice e achismo se cristalizam e servem de catequese pra toda uma geração que quer achar que blogue, quadrinho e caixa de diálogo de joguinho de videogame é literatura. lml.

maio 25th, 2012 § Deixe um comentário

a primeira coisa que me incomoda na cia das letras é a maneira como eles venderem o catálogo deles como reflexo fidedigno da grande literatura que anda acontecendo distorce a percepção das nossas mentes mais afeitas à vanglória do que a leitura. eles tem walser? têm, é importante e tal. a relógio d’água tem cinco e por aí vai. ou seja, não é porque eles dizem que auster é bom que ele é bom. lml.

maio 23rd, 2012 § Deixe um comentário

Tentam (tentamos) uma meia entrada com nossa atenção a meio pau em uma seminarrativa sobre o quê, mesmo? Ah, sim, vidas alheias que talvez sejam as nossas. Fazem isso (fazemos) para tentar recuperar, à distância sem grandes esforços, a vida. A nossa. Mas sem acreditar muito que vá funcionar. Eu sei. É igual para mim.

elvira vigna, O que deu para fazer em matéria de história de amor. cia das Letras, 2012. chegou hoje, holy fuck. lml.

dois anos atrasado

maio 20th, 2012 § 3 Comentários

eu sei que ando mei ocupado e mei chato nesses

últimos tempos e não exatamente falante mas eu
quero que você entenda que isso não quer dizer
que por um segundo que seja você deixa de ser
a pessoa ao lado de quem eu quero ficar pro resto
da minha vida. eu fico feliz de verdade com a
gente ter alcançado uma cumplicidade ao mesmo
tempo tão abrangente e tão minuciosa, tão detalhista,
de maneira a completar cada coisa que cada um
quer ter num namorado(a). é isso, você não só é
anatomicamente (uhl) do meu número, você marca
todos os quadradinhos do meu checklist da paixão.
tanto que eu também nos imagino bem velhinhos um
do lado do outro só de mão dada na boa na praia, de
oclinhos escuro, eu de short de coraçãozinho, você de
maiô de cavalos marinhos e uns anões japas nos
servindo drinks com guarda-chuvinha.
um email. lml.

roubado do mais1livro por ocasião de ter sido a coluna mais lida do site inteiro no mês

maio 20th, 2012 § Deixe um comentário

(suitcase calling, do the polyphonic spree, no som)

Em 2005 a literatura era mais esquisita. Na ressaca da Livros do Mal, floresceram editoras minúsculas que quiseram fazer a diferença e acabaram sucumbindo, deixando pra nós só ecos. São Paulo, pra variar, era o epicentro. Muita coisa que hoje nos soa a cacarejo de tia velha na época soava a gente de fora do mercado dizendo e fazendo coisas excitantes, virando a (off?) Flip de cabeça pra baixo. É difícil peneirar os trabalhos de editoras como a Baleia, a Amauta, a K. Edições, a Kafka, a Demônio Negro, a Ciência do Acidente, a SeloZero, na figura de editores e autores que hoje foram ou incorporados ao sistema ou tragados pelo anonimato. Em suma dá pra dizer que muitas das próprias práticas daquele tempo acabaram sendo assimiladas pelo mercadão, desde edições artesanais até tiragens limitadas de exemplares diferenciados. O panorama das editoras minúsculas (Não, Iara, Dublinense, Secreta, Dulcineia Catadora, Scriptum, Confraria dos Ventos, Baluarte, Bartlebee, Crisálida, Draco) é bem diferente hoje, mais segmentado e mais profissional (editora pra quem fez aquela oficina literária, editora de arte, de quadrinho, de especulativa, de nordestinos), com pouca relação com as aventuras desse nicho de mercado que começava a se abrir ali no começo dos 2000 (desconsidero, é óbvio, edições mimeografadas, que datam de bem antes). Hoje, independente do porte da editora, não existe livro feio, enquanto na época existia livro de todo jeito, de bizarrices como o Não Há Nada Lá a obras-primas como o Encarniçado, há inclusive o que motivou essa postagem e que eu ganhei na última viagem a SBC: O Som de Nada Acontecendo, de Estevão Azevedo, saiu pela K. Edições numa coleção com diagramação pocket no ano fatídico de 2005 prologado por Nelson de Oliveira e vendido por aí no Del Rey do dono da editora. lml.

maio 20th, 2012 § Deixe um comentário

macaqueando, namedropping serve menos à construção do que à filiação. é um problema de caráter imaginar que invocar ornamentalmente nomes mais famosos do que o do autor, tomara, engrandece o texto. problema que está justamente na intuição de que pode dispôr desses nomes ao léu, sem compromisso prévio.

não pode.

em um sete um fala em algum momento de uma rua assis brasil. a rua pretensamente existe. o autor pretensamente foi aluno da oficina literária de assis brasil. a figura de assis brasil, um contínuo de institucionalismo, beletrismo e oficina literária, me incomoda. a menção, em tom de piada, foi desnecessária e me indispôs contra o livro. lml.

post que usa e abusa da expressão literatura com l maiúsculo

maio 20th, 2012 § Deixe um comentário

(don’t stop, do fleetwood mac, no som, filme da amanda bines na tevê ao fundo, ressaca)

seguinte, finisterra é um livro sério, seriaço, infinitamente sério, que, não sendo pomposo, mira no rol pomposo de livros de literatura com l maiúsculo. questão é, como é que um livro se consolida¹ em face de e dentro desse cânone?

o que acontece é que o mercado se estratificou, se eu, por exemplo, sou uma habitante de passo fundo à beira de um ataque de nervos e escrever sobre isso, haverá uma editora responsável por recepcionar e distribuir esse livro. se eu escrever um livro de literatura com l maiúsculo haverá inúmeras editoras pra ele, em todos os níveis de reconhecimento e orçamento. ou seja, em meio a tanta distração como é que o livro se firma? não sei, e possivelmente tanto faz. esse mar de indistinção, de tanto livro sendo lançado ao mesmo tempo, indica justamente a insignificância, a vaidade² de querer fazer e ler literatura com l maiúsculo, e isso tira um peso das minhas costas.  já que o que gente publica se dissolve antes de ser lido direito, então não custa nada me ater a alguns compromissos de não fazer: namedropping, mobilidade internética (ser rato de caixa de comentário muda nada), tratar a própria figura pública como algo vendável, e por aí vai. lml.

¹um amigo apontou que isso só se dá mediante academia, concordo mas aponto que a consolidação na academia é, e tem de ser, tardia, meu argumento aqui é mais sobre a realização imediata do livro, junto a leitores desejavelmente independentes e junto ao mercado

²a palavra espanhola vanidad é um substantivo abstrato derivado do adjetivo vano, que significa vão

maio 18th, 2012 § Deixe um comentário

neste post aqui, a crítica do fantini é muito clara: não podemos perder de vista a maneira como o reconhecimento de um escritor vai afetando sua produção. saer é um caso latino-americano raro de falta de deslumbramento com as pilhas de ouro de tolo que é a fama. grande parte dos outros, talvez até bolaño, perde a mão do próprio programa (se é que um dia houve um) pra premiações e encomendas. lml.

maio 18th, 2012 § Deixe um comentário

maio 17th, 2012 § Deixe um comentário

(circo marimbondo, do milton, no som)

2000: eles eram muitos cavalos, o paraíso é bem bacana, acenos e afagos, livro dos mandarins, a um passo, nunca o nome do menino, a morte de paula d, outra vida, encarniçado, a múmia do rosto dourado do rio de janeiro, os malaquias. só¹. lml.

¹sendo claro, sem hipsters gaúchos nerds, sem sampa crew

maio 17th, 2012 § 1 Comentário

(razor love, do neil young, no som)

vestigial, rudimentar, atávico, se é pra imitar dfw. é difícil apontar dedos – é culpa do jornalismo, é culpa da estética do mínimo, é culpa da profissionalização estratificadora do mercado, é culpa de uma best sellerização, de uma aceleração de escrita e de leitura – mas que é mais do que verdade que os livros hoje são um décimo do que se fazia há cinquenta¹ anos nesse país isso é. lml.

¹grande sertão, contos do imigrante, panamérica, crônica da casa assassinada, o acrobata pede desculpas e cai, a quadragésima porta são exemplos

sobre caixas de comentários

maio 17th, 2012 § Deixe um comentário

(lonely sattelite, do yura yura tenkoku, no som)

autoestima alta é avis rara num mercado de escritores tão provinciano que o que entra em jogo é autoestima. isso é vestígio beletrista, de quando era desejável a ascensão social muda e apriorística do escritor, o não debate, as intervenções sempre opiniosas e papais. o embate é entre posições projetadas, nominais ou efetivas, entre autoestimas vaporosas, que qualquer crítica esgarça. a reação natural de um tímido acuado não é retrucar? lml.

maio 15th, 2012 § Deixe um comentário

na medida em que você privilegia um registro naturalista, sem enfeite, e ao mesmo tempo prefere tratar do que é subjetivo a tratar do que é jornalístico, a sua escrita ganha peso, justamente por se opor tanto ao derramamento lírico quanto ao cânone do jornalismo. a decisão de ser ficcionista é também uma decisão de suprir certas lacunas relacionadas ao entusiasmo do brasileiro com esses dois cânones? lml.

maio 15th, 2012 § Deixe um comentário

(secundado por caderninho cheio, folhas de almaço virgens,

murmúrio de ar-condicionado na biblioteca vazia, nunca o nome do menino, infinite jest, caneta)

em última análise, a vontade de escrever¹, a crença na possibilidade de situar e fundamentar a escrita numa zona independente da academia e do jornalismo, a crença na ficção como meio ao mesmo tempo discursivo e não comunicante, distintivo o suficiente pra que dê vontade de exercê-lo assim, às secas, sem maior justificativa ou utilidade do que nosso próprio ego, é balela reversível mas em que é preciso persistir. lml.

¹que tem menos de compulsão do que insistência na contramão de quaisquer outros afazeres

Onde estou?

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