6 de março de 2013 § Deixe um comentário

The Players, coming out of their various kitchen doors and hesitating for a minute to button their coats or pullon their gloves, would see a landscape in which only a few very old, wheatered houses seemed to belong; it made their own homes look as weightless and impermanent, as foolishly misplaced as a great many bright new toys that had been left outdoors overnight and rained on.

Revolutionary Road. Richard Yates.

14 de fevereiro de 2013 § Deixe um comentário

o que me parece mais bobo nisso aqui não é a legitimação óbvia e rasa de autores que a internet já nos informou de que o autor curte. é mais do que autoritária essa carta na manga de eu li esses livros essenciais e não se discute. e um autoritarismo que, pra parafrasear bolaño, reflete complexo de inferioridade. não interessa debater se são esses ou se são outros os de um hipotético cânone (embora qualquer menção a milton hatoum faça estômagos revirarem por aqui¹). me parece mais importante pensar que existe um momento em que o alcance (individual, sempre intransferível, graças a deus) da obra passa a prescindir de sua macheza, de sua repercussão e de sua consolidação dentro de um sistema. a fragmentariedade, a consciência do fôlego curto demais pra que ela possa vir a ser a pedra angular do que quer que a suceda, me atraem mais. a estilização de fragmentariedade visando à perpetuação da obra como grande obra, que é algo de que o autor da lista se vale em mais de um livro, é só blefe. vai dizer qual é a maior obra do saer? do cheever? do noll? da duras? do strindberg? qual a contribuição deles pr’um suposto estado de coisas literário? resulta ser um ato político, fundado numa convicção estética, ou numa saudável não-convicção, o de não se inscrever nesses joguinhos.

¹e por falar em invenções do mercado, se fosse pra ser paranoico de um jeito que eu já tinha prometido que eu ia deixar de ser, dá pra ver que seis dos dez itens da lista saem no brasil pela companhia das letras

23 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário

Assuming Sherman did do it – and I have no reason do doubt him – his dwarfism was the reason he got away with it, for in the North London in the 1970s the unesasy ridicule that disability once provoked had mutated into a tolerance that already verged on de facto acceptance of collective responsability: we were all to blame for Sherman Oaks restricted height.

Will Self. Walking to Hollywood. 2011. lml.

 

do meio do mato nos deslumbramos

13 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário

um amigo manda do rio de janeiro a notícia de que viu o antonio cicero na rua e foi tietar. sei nada sobre antonio cicero, só que ele escreveu a letra da minha música preferida do lulu santos. leio o blogue dele também. qual não foi minha surpresa quando, folheando-o a esmo na livraria, a pura força dos poemas me fez ter vontade de comprar.

comprei.

ainda é cedo pra detectar mas determinado prosaísmo, determinado barroco que se debruça sobre coisas não obviamente importantes, determinada reavaliação da herança helênica, determinado apuro não beletrista de linguagem me fizeram lembrar dos poemas do ismar tirelli neto, outro carioca. lml.

13 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário

A prefeitura dessa cidade adotou um negócio em que, se você cadastra seus cupons fiscais no site, vai acumulando pontos que depois dão desconto em imposto de carro e propriedade. Não que eu tenha carro nem propriedade. E por isso mesmo a rotina é a de caminhar a esmo parando de vez em quando o catálogo das escadas mais inúteis do bairro para tomar um café.

De maneira que quando tem uma plaquinha pendurada no computador do balcão e não tem ninguém nem no computador nem para me atender, está tudo vazio, só o que resta é ler a plaquinha e especular sobre ela, nem que seja para fazer hora até a garoa passar.

Quem escreveu a plaquinha foi a dona da lanchonete, ou a titular da franquia, dizendo que, se o funcionário não entregar o cupom fiscal, é da maior importância que o cliente ou ligue no celular dela ou mande e-mail. Do que nós podemos concluir que o pessoal do caixa andou retendo esses cupons fiscais e cadastrando em benefício próprio.

Que nem quando eu trabalhava na livraria e uns caixas foram demitidos porque estavam lançando a pontuação do programa de fidelidade dos clientes no próprio cpf. Ou quando câmeras que se supunha que eram de mentira flagraram os repositores de um supermercado comendo iogurte durante o expediente. Ou quando o sanduíche que eu pedi para virem entregar em casa veio numa sacola de papel lacrado com um adesivo assinado por um suposto supervisor e escrito para não aceitar a entrega se estiver violado.

Isso sem contar as incontáveis anedotas envolvendo garçons cuspindo em pizzas por vendetta.

Ou talvez seja só uma fixação besta e substitutiva com comida. lml.

13 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário

Os dois queriam ficar acordados até o calor passar. Calados e olhando um para a cara do outro porque qualquer coisinha faz o calor piorar.
Praticamente um jogo do sério, ganhava quem terminar de contar as gotas de suor no rosto do outro sem rir, não que tenha alguma coisa de engraçado. Rir faz o calor piorar.
A moça, Tatiana o nome dela, não resolveu se é melhor a mão tentando secar borrar a maquiagem ou se é melhor deixar o suor livre fazer isso.
Ao contrário do Quim, ela se arrumou. Ele só pegou a primeira camiseta de banda que achou no chão, porque é preta. Pena que preto absorve o calor.
A pele de um reconhece e absorve o calor da do outro. De tantas cadeiras perfiladas contra a parede, ele, que se atrasou, escolheu justamente a do lado da dela, sabe-se lá por quê.
Eles não se falaram nem se abraçaram quando ele chegou. E ela já tinha parado de chorar.
O padre já tinha ido embora deixando velas acesas e incensos fumegando. As outras pessoas que apareceram já tinham ido embora. Inclusive parecia que os funcionários tinham ido embora e aí a Tatiana não sabia quem ia fechar o caixão.
Ela ficou porque ele prometeu que não ia demorar. Ficou fazendo nada, usando a tela do celular de espelho para tentar consertar a maquiagem.
O luto não é motivo para aparecer descabelada. Ela se empertigava sem parar de olhar para ele, arrumava a barra da blusa, roía o canto de uma unha.
Cada um olha o outro virando só a cabeça e não o corpo, e mesmo assim, olhando um pouco para baixo, para mostrar o luto. O Quim tenta não ler a tatuagem no tornozelo da Tatiana.
O máximo que eles trocaram foram bocejos por trás das mãos. Ela não quer aceitar o ombro dele. Ele quer alguma coisa para dizer.
Essa brincadeira inédita faz aumentar o calor, isso que já era quase meia-noite, hora de os mortos levantarem do caixão. Hora de o morto no meio da sala levantar e quebrar o gelo.
Se não fosse ele, parecia que o Quim não ia conseguir. Não que algum gelo aguente esse calor.
O próximo lance foi ele finalmente pondo a mão por cima da mão que a Tatiana apoiava na própria coxa. Durou pouco.
A outra mão de cada um não conseguia disfarçar os bocejos.
Ele recolheu a mão mais embaraçado do que ela.
A desculpa silenciosa que a Tatiana deu para tirar a mão de baixo da do Quim foi acertar alguma coisa no cabelo. Quando ela toca o cabelo, fazendo o mínimo de esforço possível, sobe um perfume.
Um perfume que o Quim não conhecia e não sabia se esse perfume era para ele, para mostrar para ele o que ele tinha perdido, não devia ser.
Ainda bem que eles estavam perto. Ao redor, o incenso oprimia.
Se fosse para falar alguma coisa, ele ia comentar o tanto que ela se arrumou para o velório. A Tatiana ia comentar o contrário, que ela achava falta de respeito ele aparecer daquele jeito.
O carpete vermelho fazia o calor piorar.
O caixão aberto só da metade para cima deixava ver um rosto pacificado, alheio à brincadeira.
Eles deviam dividir o mesmo medo falar alguma coisa e a palavra não atravessar o mormaço que o ar-condicionado barulhento não aliviava.
Fazia piorar, na verdade, porque cada lufada de ar morno não acordava nem refrescava, só fazia lembrar do calor e do silêncio.
O Quim queria contar que estava há trinta e seis horas acordado e que o morto tinha morrido quando ele tinha dado uma saída pra tomar um banho em casa.
Não queria contar que conversou foi muito com o morto antes de ele morrer. Sobre a Tatiana.
Não queria revelar que ela era um assunto. E espinhoso, ainda por cima. Tanto é que ele não se sente lá muito autorizado a tocá-la.
Nem o calor nem o incenso nem o morto autorizam.
A Tatiana queria contar que ia largar o emprego no restaurante. Que muito obrigado mas ela tinha arranjado uma outra coisa, no Rio de Janeiro, na loja da tia.
Não que tivesse alguma coisa a agradecer. Nem hierarquia tinha entre os dois no restaurante, o muito obrigado seria por educação. Seria.
Ao que parece, a morte do morto autoriza os dois a se separarem. Ninguém queria comentar que ela só estava nessa pelo avô mesmo. Mas todo mundo sabia.
O morto é a coisa mais fria na sala.
A mãe da Tatiana é que gostava dessa expressão e devia estar só esperando a filha chegar em casa para dizer que o corpo nem esfriou e o pai da Tatiana já estava querendo reatar.
E fazia mal. Nem sonhando.
Até porque, no que dependesse dependesse da mãe da Tatiana, o Quim também não ia continuar no restaurante. O avô da Tatiana tinha feito um favor ao genro e agora que ele tinha passado dessa para a melhor e o restaurante ia passar, se deus quisesse, para a mãe da Tatiana, não tinha por que transformar um bico num troço definitivo.
Mas a mãe da Tatiana ainda não sabe dessa história de Rio de Janeiro.
O Quim tinha nascido no Rio de Janeiro. E estudou no mesmo colégio que o Cazuza, é o que ele gostava de dizer para quebrar o gelo.
O suor que atravessava a camiseta de banda provavelmente se misturava ao de outras pessoas no espaldar acolchoado da cadeira.
E parece que é meio mentira isso de que meninas-moças não suam.
O próximo movimento é ele tocando um brinco na orelha. Talvez para limpar uma gota de suor.
A orelha é no lado oposto ao que quase encosta no braço da Tatiana. Ela não vê e não vira para olhar para onde vai a mão.
O espaço entre o braço exposto da Tatiana e a manga da camisa do Quim era tão pequeno que deve ter tido alguma estática ali.
A mão não descansa depois de um movimento tão cansativo. Entra pelo bolso e apalpa um maço de cigarros.

sei lá que porra é essa. lml.

 

9 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário

atrás da casa do protagonista de casa monstro, drenaram um lago pra erguer um “empreendimento imobiliário”. o narrador coral de virgens suicidas frisa o tempo todo que a história aconteceu antes de a fuligem industrial tomar conta do subúrbio dele. e o verdadeira problema de marcie flint não é ela ter traído o marido e sim ter traído com um cara de maple dell, em detrimento de shady hill.

a própria percepção de que o subúrbio americano é uma unidade significativa, uma moeda de troca que irradia noções de preservação da infância e conforto material, vem embrulhada na noção das ameaças de desestabilização interna (psicológica, identitária) e externa (ambiental, econômica) a essa unidade.

sinto o mesmo em relação à parte de baixo da asa norte. por mais que reivindicação histórica seja inútil, por mais que o niemeyer tenha falhado, uma parte do que me faz gostar desse bairro é a impressão de que a qualquer momento o lobby das construtoras vai derrubar o tombamento. lml.