fevereiro 24th, 2012 § Deixe um comentário
não é que eu não goste do dfw. eu gosto. acho besta o cultinho pseudacadêmico em torno e me frustra não conseguir abranger nem 10% do que o cara conseguiu enxergar. acho que ninguém consegue. com certeza nenhum brasileiro consegue (o c. galindo consegue mais que todos, sem dúvida). o que acontece é que há esses momentos¹ em que o brilhantismo é ao mesmo tempo inegável e acolhedor, quase um cheever. lml.
acho que mais frequentes no jornalismo dele.
hoje eu escrevi um miraculoso quarto de página
fevereiro 24th, 2012 § Deixe um comentário
(we have heaven do yes, no som, gripe moderada)
em bsb as calçadas ficam escorregadias nessa época do ano, cobertas de flores vermelhas emborrachadas. o nome dessa flor pode ser mijo de macaco ou mijo de gato. essa flor é do gênero spathodea, aportuguesado ficou espatódia: em bh há uma rua flor de espatodia. no finisterra, todas essas informações aparecem condensadas na frase mas a menina provavelmente quase escorregaria numa spathodia daquelas.
até onde eu sei, a prosa que me agrada e que eu defendo é essa em que um detalhe físico aflora sustentado por uma gama de estruturas, âmbitos, camadas não porque não são superposições. escrever um livro não é um negócio direto, precisa assentar uma série desses âmbitos antes, pra fazer aflorar esses detalhes, e isso pode desviar o foco da história inicial. lml.
fevereiro 24th, 2012 § Deixe um comentário
no meio de todas as viadagens, egolatrias, megalomanias não só do corgan (quem mesmo tentou remontar a banda sozinho em 2002 o iha ou o chamberlain?), tem esse instante em que a tal da raiva de armário¹ não sai do armário mas deixa escapar uns acordes pela frestinha da porta. e esse instante é belo. lml.
¹armário é uma imagem boa pruma banda que tem um clipe inspirado num clipe dentro de um armário
fevereiro 24th, 2012 § Deixe um comentário
(dilema sobre recomeçar tu rostro mañana)
esquisito isso, né. ando pensando justamente nessas coisas aí, na diferença (procedimental e funcional) entre a pulsão de documentar e a de iluminar. e isso por a obra de arte ser ligeiramente maior do que os elementos que a compõem, até porque, depois da composição, antes da recepção, há coisas que não se pode mais direcionar. lml.
fevereiro 24th, 2012 § Deixe um comentário
((do not feed the) oyster, do stephen malkmus and the jicks, no som)
a gate at the stairs não narra transição. não narra o ponto de viragem mais do que cronológico dos 20 anos. representação ali é tão densa que parece estanque em cada momento, não transita, não transige. presentificada no detalhe do detalhe¹ das mãos e na relação entre esse detalhe e o resto. e isso que é um livro vasto no seu confinamento temporal, percorre as distâncias curtas minuciosamente. lml.
¹característica comum na lit americana, que a lorrie moore exacerba, outra que ela exacerba é o gosto por tecnicismos muito específicos e intraduzíveis
fevereiro 24th, 2012 § Deixe um comentário
(lendo tobias wolff)
blogue é meu, posso colocar a música de 18 minutos que eu quiser, parece que essa foi mei inspirada por siddharta, do hesse. depois de ter parado de baixar música, incrível, inaudita e inquietante a quantidade de yes que anda rolando cá no winamp. lml.
fevereiro 22nd, 2012 § Deixe um comentário
corpo a corpo na rua vazia. algo apocalíptico assombra a decisão de sair na rua em dias esquisitos: jogo do Brasil na Copa, carnaval, eleições. pedestres desgarrados, ambulâncias interrompendo pistas, cercas de última hora que não conseguem separar um lugar para os ambulantes e um lugar para os festeiros. encontro de blocos, procissões, manifestações e marchas. lixo. sirenes, choros de bebê, sempre alguém vestido de mulher ou de gladiador, superomão. suores grudando uns aos outros, de raspão. tudo meio de raspão, obrigando a dar a volta, da manta de artesanato dos hippies à camisinha usada que é embaraçoso quando uma criança pergunta o que é. no caso, estava em São Paulo no dia trinta e um de dezembro, especificamente na estação de metrô às três da tarde, voltando pra casa, quando recebi uma ligação marcando na livraria dali a três horas. não fazendo sentido ir pra casa pra depois voltar, decidimos ir andando, passar num café, fazer disso um passeio. acontece que trinta e um é dia de São Silvestre. mais que nunca as mesas daquele bar antes do Trianon invadiam a calçada. não foi nesse dia que eu descobri que dá pra entrar no prédio desse restaurante, e as galerias são maravilhosas e antigas, com até uma cascata artificial de cinco metros de altura. nublado e calor. pessoas sem camisa empurrando pra abrir caminho. ela precisava sacar dinheiro, atravessamos a rua, atravessamos a espessura de pessoas que já tinham se postado na calçada pra assistir à corrida. pela quantidade de lixo e pelos dois mendigos dormindo em frente, era de se pensar que a agência estivesse fechada. não é bem uma vitrine, é só um vidro mesmo o que separa os caixas automáticos da rua. imaginável que no caso de um assalto, ninguém perceberia, mesmo com o vidro, o pessoal estaria assistindo a corrida, de costas pra movimentação no banco. não dava pra ver a pista de lá de dentro. um black power verde e amarelo ajudava a atrapalhar. comecei a olhar em volta enquanto ela sacava o dinheiro, vigiar se as câmeras pareciam ligadas, se estava tudo bem com as lixeiras ou se tinha algum objeto abandonado. demorei a perceber as pernas de um corpo cujo torso se escondia atrás da divisória de um caixa eletrônico mais longe. pés inquietos em tênis baratos batucando o piso. quando eu tinha onze anos li uma reportagem na Super Interessante sobre essa doença que os laboratórios estavam inventando: não era uma doença de verdade, era mais a sugestão psicológica, pra fazer as pessoas comprarem um remédio lá que eles tinham inventado. chamava a doença das pernas inquietas. até aí tudo bem. o assustador foi quando na semana seguinte eu li na Mundo Estranho (que era a Super Interessante pra crianças), na seção de cartas dos leitores, uma carta que dizia algo como tenho uma doença curiosa, minhas pernas não conseguem parar quietas, se quiser saber mais sobre essa doença estranha acesse o site xis. um negócio meio teoria da conspiração. esse par barato de tênis batucantes da agência poderia ser uma cobaia perdida de um desses laboratórios, a quem esqueceram de avisar do fim da missão, e isso o fez ficar preso na terra de ninguém. isso eu penso na hora lá, no minuto e meio que demora pro caixa automático entregar o dinheiro dela. no minuto e meio em que eu descubro que é um homem o dono das pernas, e que não para de olhar pra mim, repetidamente, pondo a cabeça pra fora da divisória do caixa eletrônico, me encarando e voltando para a tela. isso umas dez vezes. meio fissurado, parece. se ele quisesse nos matar nenhum dos corredores do pelotão amador da São Silvestre ouviria. reabilitaram as vuvuzelas. movimentos estranhos, no rabo do olho. uso as mãos para formar um número, um valor mais baixo do que ela queria sacar, pro caso de o cara nos abordar. ela não entende. eu não sei se dá pra explicar pra ela com sussurros ou se o cara vai desconfiar, achar minhas mãos freneticamente suspeitas. ela sai praticamente arrastada por mim da agência, mal tendo tempo de apertar finalizar pra fechar a tela do caixa eletrônico. não olho pra trás conforme nos misturamos à multidão. só quando a gente chega à calçada do outro lado é que se ouve a pistola que marca a largada dos competidores. lml.
at arm’s length X close to the chest
fevereiro 21st, 2012 § Deixe um comentário
(when i wake, do aria orion, no som)
até onde lembro, o nabokov diz pra paris review que essa história de personagem autônomo, fugido do controle do escritor, é uma história boba que o e.m. forster inventou. tanto é que isso deu um medinho na hora de ler on beauty¹, da zadie smith, abertamente homenagem ao forster. pois bem, nunca o nome do menino trabalha sob essa rédea, levando essa canga de boi. lml.
¹livro fraco
fevereiro 21st, 2012 § 2 Comentários
(sala de embarque do terminal 4, guarulhos, 16h31)
Pra usar a expressão de um amigo, eu sou o menor dos anões da paróquia; talvez seja só por isso, por cagaço mesmo, que eu não levo a cabo alguns pequenos suicídios profissionais, recusar uns convites, umas conveniências, em prol de tentar alguma coisa maiorzinha, sair dessa lengalenga, não sei, vamos esperar uns e-mails. lml.
fevereiro 21st, 2012 § Deixe um comentário
pr’arrematar, uma história pouco divulgada e que não faz diferença: abomino oficinas de escrita literária. não acho que funciona, ou acho que funciona de maneira a uniformizar percepções, quase dá pra notar aquele vontadezinha do oficineiro de substituir Leitura por leitura sobre leitura¹. e isso é insubstituível, e é o único momento que pode ensinar o que quer que seja: abrir o livro e ler. lml.
¹lembro de um Borges que falava tipo: por sorte, naquela época, não existia literatura infantil, então sei lá quem teve de ler filosofia clássica desde a infância.
fevereiro 21st, 2012 § Deixe um comentário
um ditado (argentino) diz que você compra um argentino pelo que ele vale e vende pelo que ele acha que vale. isso vale pra esse Daimon Junto à Porta. incrível como rolam certas seriedades e a transcendências auto-atribuídas: tudo bem que haja um mercado interno gaúcho de literatura, tudo mal é achar que isso justifica. há pedigree numa orelha assinada pelo Kiefer¹, assim como há pedigree em ganhar um Açorianos. E é na obediência a esse pedigree² que Daimon Junto à Porta falha. lml.
¹que na própria orelha dá a receita do acidente: “contos inteligente, instigantes e bem construídos”.
²fraseado truncado, tecnicista, da gaveta, lirismo de empréstimo, representações batidas
fevereiro 21st, 2012 § Deixe um comentário
um post antigo mencionou autores desses experimentais a que o cheever sobreviveu. agora penso que ele também sobreviveu à 2ª guerra mundial, à da coreia, à do vietnam, ao nixon e às crises do petróleo entendendo que literatura não é pão pão queijo queijo, que a observância de objetos concretos transborda o relato: vai ao cúmulo de iluminar as situações pra que o todo exceda o tamanho das partes. lml.
trecho pra turbulência e mãos
fevereiro 21st, 2012 § Deixe um comentário
Sometimes one would pretend to be unconscious or dead while the other one forced her back to living, which was indicated by giggles and brought about by tickling or pouring sand onto bare bellies or into hair. Sometimes it seemed to me that children believed death occured in differente forms than adults did, in varying degrees , and that intersected with life in all kinds of ways that were unofficial. It was adults who felt death exerted a lurid sameness over everyone. Why couldn’t it be as varied as life was? Or have its lurid sameness similarly gussied up and disguised?
LORRIE, Moore. 2009. A gate at the stairs. Random House. New York. lml.
fevereiro 21st, 2012 § Deixe um comentário
em salas de espera, mais do que quem também espera, o que intriga é o rumor que a finura das divisórias e as frestas das portas prometem e não terminam de entregar, sempre sobra alguma risada - se é que dá pra dar risada com um médico, massagista – mas nunca uma frase completa, nem quando termina a consulta, médico e paciente se encaminham pra sair e já não faz diferença. lml.
baixa aderência: baixa adesão
fevereiro 15th, 2012 § Deixe um comentário
(catedralli di bambu, hunka munka, no som, frio)
último post foi despedida, mas, salvo pelo gongo, eventos recentes me ressuscitaram na última hora: um post antigo respondia qual é a da lit br desapegada de objetos e apegada a egoicas percepções nubladas. pois desdobramento disso está em pensar não só no nosso lirismo como rarefeito mas também na nossa violência¹ desse jeito, pior que espaguete, mais frouxa que o venerado² bukowski, mais solta que cu de bêbado, pra usar uma expressão dessas vulgares que nos acostumamos a achar que tampa os problemas com representações concretas. lml.
¹se é que é violência e não só voyeurismo
²venerado equivalendo a venéreo, pra cumprir a moda
fevereiro 14th, 2012 § Deixe um comentário
levarei 2 livros pra sbc, a cidade que abaixa minha média diária de cafézinhos: o gate at the stairs interminável e inescrutável por causa da densidade do personalismo ali e o galardoado daimon junto à porta que eu andava muito querendo ler e o João, meu editor no mais1livro, mandou gentilmente. esse eu espero que dê pra resenhar. li um pouco, pareceu legal. lml.
fevereiro 14th, 2012 § Deixe um comentário
se frequentássemos um college no começo dos sessenta o exército viria, entraria nas salas, desdobraria gráficos e mapas, entregaria bottons, faria simulações pra nos intruir que, caso uma bomba atômica seja detonada na cidade e nós estejamos no nosso quarto no dorm, a primeira coisa a fazer seria arrancar o colchão da cama pra tampar a janela, sem olhar o clarão da explosão, claro, e só depois nos dirigirmos aos abrigos subterrâneos.
e existe chance de uma bomba atômica cair em nossa cidade universitária, que não é perto de Jersey nem de Philadelphia, perguntaríamos ao coronel
é claro que nem o campus nem a cidade são alvos preferenciais, o problema é o arsenal da marinha que fica a oito milhas daqui
lml
fevereiro 14th, 2012 § Deixe um comentário
(per un amico, da premiata forneira marconi, no som, chuva)
o que impressiona nessa banda postada num lugar aparentemente¹ privilegiado da rodoviária, ao lado da cabine de foto/xerox na frente da escada rolante não é a falta de perna do integrante do meio, o mais velho, em torno do qual a banda orbita, é a tentativa de combinar roupas. com certeza começou pelo chapéu vermelho desse velho, sanfoneiro, e foi se espalhando para o zabumbeiro e para o trianguleiro, sob a forma, respectivamente, de camisa polo roxa desbotada e camisa do flamengo. o cúmulo é pé único calçado com uma havaiana da seleção da espanha e os outros dois de botina. lml.
¹hoje tinha uma banda de pagode lá
fevereiro 13th, 2012 § Deixe um comentário
(cada leitura das 130 páginas de la invención de morel dura só o tempo que, por mais que se queira prolongar por prazer, lendo de novo ou puxando pela memória depois, é o tempo justo e necessário, esquálido, tipo naquele filme do bruce willis em que o tempo da ação coincide com a duração do filme)
Atacaré en esas páginas a los agotadores de las selvas y los desiertos ; demonstraré que el mundo, con el perfeccionamento de las policías, de los documentos, del periodismo, de la radiotelefonía, de las aduanas, hace irreparable cualquier error de la justicia, es un infierno unánime para los perseguidos.
CASARES, Adolfo Bioy, 1940. La Invención de Morel. Alianza/Emecé. Décima reimpressão. Madrid, 2011. lml.
o post mais banal sobre a pretensão crítica dos reles (enfatização em vez de ênfase)
fevereiro 12th, 2012 § Deixe um comentário
(is it my name, do todd rundgren, no som, carros chapinhando, uma sirene de fundo)
programa de calouros de stand-up na tevê, até aí, grande coisa, não vale um post. o que sim vale um post foi o jurado que tirou ponto do concorrente porque o concorrente “usou um tema batido enquanto o trabalho do comediante tem que ser autoral“. autoral, foi essa a palavra. então autoria é tirar uma novidade do cu a cada vez? não é o processo? lembra o comentário dos detratores sobre o nada a dizer ser um livro batido sobre adultério. lml.
